BEM SEI que, olhando p'ra minha cara,
p'ra minha bôca, triste e incoerente,
p'ros gestos vagos de sombra incerta
que hoje sou eu,
minha loucura se faz tão clara,
minha desgraça tão evidente,
minha alma tôda tão descoberta,
que pensam: «Êste, não bebeu...»

«Passei a noite, passei o dia
de cotovelos firmes na mesa,
de olhos sobre o vinho perdidos,
a testa pulsando na mão:
e muros de melancolia
subiam pela sala acêsa,
inutilizando os gemidos,
mas quebrando-me o coração.

«Deixei o copo no mesmo nível:
bebida imóvel, espêlho atento,
onde — só eu — vi desbrochares,
rôsto amargo de amor!
Vim da taverna ébrio de impossível,
pisando sonhos, beijando o vento,
falando às pedras, agarrando os ares...
— Oh! deixem-me ir para onde eu fôr!...»