ESTOU tão cansada, tão cansada,
estou tão cansada! Que fiz eu?
Estive embalando, noite e dia,
um coração que não dormia
desde que o seu amor morreu.

Eu lhe dizia: «Deixa a morte
levar teu amor! Não faz mal.
É mais belo êsse heroísmo triste
de amar uma coisa que existe
só para morrer, afinal...»

«Deixa a morte... Não chores... dorme!»
Noite e dia eu cantava assim.
Mas o coração não falava:
chorava baixinho, chorava,
mesmo como dentro de mim.

Era um coração de incertezas,
feito para não ser feliz;
querendo sempre mais que a vida —
— sem termo, limite, medida,
com poucas vezes se quis.

O tempo era ríspido e amargo.
Vinha um negro vento do mar.
Tudo gritava, noite e dia,
— e nunca ninguém ouviria
aquele coração chorar.

Uma noite, dentro da sombra,
dentro do chôro, a sua voz
disse uma coisa inesperada,
que logo correu, derramada
num silêncio fino e veloz.

«Meu amor não morreu: perdeu-se.
Êle existe. Eu não o quero mais.»
O chôro foi levando o resto.
Eu nem pude fazer um gesto,
e achei as horas desiguais.

E achei que o vento era mais forte,
que o frio causava aflição;
quis cantar, mas não foi preciso.
E o ar estava muito indeciso
para dar vida a uma canção.

A sorte virara no tempo
como um navio sôbre o mar.
O chôro parou pela treva.
E agora não sei quem me leva
daqui para qualquer lugar,

onde eu não escute mais nada,
onde eu não saiba de ninguém,
onde deite a minha fadiga
e onde murmure uma cantiga
para ver si durmo, também.