DESDE o tempo sem número em que as origens se elaboram,
se estendem para mim os teus braços eternos,
que um estatuário de caminhos invisíveis
construiu com a côr e o frio e o som morto de mármores,
para que em teu abraço haja imóveis invernos.

Tu bem sabes que sou uma chama da terra,
que ardentes raízes nutrem meu crescer sem termo;
adextrei-me com o vento, e a minha festa é a tempestade,
e a minha imagem, como jôgo e pensamento,
abre em flor o silêncio, para enfeitar alturas e êrmo.

Os teus braços que veem com essa brancura incalculável
que de tão ser sem côr nem se compreende como existe,
— são os braços finais em que cedem os corpos,
e a alma cai sem mais nada, exausta de seu próprio nome,
com uma improvável forma, um vão destino e um pêso triste.

Pois eu, que sinto bem êsses teus braços paralelos,
na atitude sem dôr que é o rumo e o ritmo dessa viagem,
digo que não cairei com uma fadiga permitida,
que não apagarei êste desenho puro e ardente
com que, de fôgo e sangue, foi traçada a minha imagem.

Eu ficarei em ti, mísera, inútil, mas rebelde,
última estrêla só, do campo infiel aos céus escassos.
E tu mesma acharás pasmos de lagos e de areias,
diante da forma exígua, sustentada só de sonho
mantendo chama e flor no gêlo dos teus braços.