I

A MENINA enfêrma tem no seu quarto formas inúmeras
que inventam espantos para seus olhos sem ilusão.

Bonecos que enchem as grandes horas de pesadelos,
que lhe roubam os olhos, que lhe partem a garganta,
que arrebatam tesouros da sua mão.

Um dia, ela descobriu sòzinha que era duas!
a que sofre depressa, no ritmo intenso e atroz da noite
e a que olha o sofrimento do alto do sono, do alto de tudo,
balançada num céu de estrêlas invisíveis,

sem contato nenhum com o chão.

II

A mão da menina enfêrma refratou-se também na água pura,
como, outras vezes, sua voz, nesses rios do céu.

Partiu-se a mão contemplativa dentro d'água:
mas não houve mesmo amargura, mas quási delícia,
no seu pulso quebrado e exato.

E ela contempla a onda mansa:
e tudo isso é uma simples lembrança?
é uma alheia notícia?
ou algum velho retrato?

III

A menina enfêrma passeia no jardim brilhante,
de plantas húmidas, de flores frescas, de água cantante,
com pássaros sôbre a folhagem.

A menina enfêrma apanha o sol nas mãos magrinhas:
seus olhos longos teem um desenho de andorinhas
num rosto sereno de imagem.

A menina enfêrma chegou perto do dia tão mansa
e tão simples como uma lágrima sôbre a esperança.
E acaba de descobrir que as nuvens também teem movimento.

Olha-as como de muito mais longe. E com um sorriso de saüdade
põe nesses barcos brancos seus sentimentos de eternidade
e parte pelo claro vento.