Raimundo Corrêa
(A BARROS CASSAL) Sob inhospito solo e estéril estremece O volcão e abre a bocca aos vômitos da chamma ! Vôa o fogo no ar!... Tudo em redor se inflamma ! Tudo reduz-se a pó ! e então mais nada vê-se !...
What iron sloic can suppress lhe lear ! (CHATTERTON.) Tanta illusão sorria-te na fronte ! Vasto, rosado, esplendido horisonte Cercava a tua vida ! Mas foi curto o fulgor; da morte hedionda Tu foste ar...
Não te lembras do moço que, outro dia Passeiando na rua te mostrei ? Que bonito rapaz ! disseste Armia — (Cousa de que eu, confesso, não gostei.) Collarinhos erguidos, flor no peito, Botões douro, bot...
Hoje eu não saio ! a procella Tem gargalhadas sombrias ! Perdôa-me, oh ! minha bella ; Constipam-me as ventanias. Donzella — que noites frias ! Que'dias frios — donzella ! Donzella — ha mais de três d...
Na hora em que as clicias que nascem nos valles Entornam do calix as gotas do orvalho ; E quando o bafejo da plácida aragem Meneia a folhagem da beira do atalho ; Na hora em que surge do mar no orient...
(A FRANCISCO PESSANHA) Amigo, adeus ! comtigo, embora, estar deseje Um dia mais sequer, Não posso, que me impelle essa lei, que nos rege E se chama — o dever ! — Adeus ! perdida a náo dos pelagos no s...
I Renasce o dia ! a várzea Marcheta-se de flor — Pelo pomar fructifero Balsamo, luz, frescor... Sobem ao ether plácido Os hymnos do arrebol, Tornam-se as nuvens pallidas Roxas á luz do sol. Vôam, no b...
Lembra-me outr'ora, em madrugada linda Envolta ainda pela nevoa fria, Tu me apontavas no horisonte á medo Co'o roseo dedo o despontar do dia. Resavas terna ao pôr do sol no monte, Pendida a fronte no...
(A JOÃO MOTTA) Sulut, doux crépuscule, ô suave lumière ! (GCETHK.) E tarde ! zunidora a ventania açoita As torres da Matriz ! O brilho extremo o sol dos montes nas alturas Espalha, e as nuvens franja...
Agora que a noite estende Alvo lençol de luar — E a bafagem que rescende Nos jardins perfuma o ar ; E que a musica nocturna Acalenta a natureza, Scisma a virgem taciturna Tão cheia de morbideza ! N'um...
Acorda! O orvalho escorrega Do gravata pelas folhas, Quebra a torrente nas pedras E salta desfeita em bolhas. Acorda ! Ao longe rebenta Rouco marulho nas fragoas, O tronco de uma palmeira Rolando vae...
Estação bella! Innocente, Que ambiente N'essa quadra has de fruir " Como eu vejo o Paraíso No sorriso, Que vem teus lábios abrir ! Sorri sempre, a brisa é meiga, Doce — a veiga,— Na tua infância feliz...
(A SILVA JARDIM) Percorre no Oriente o viajor errante As terras da Judéa ermas, abandonadas, A mata secular do Libano gigante, E de Jerusalém as pristinas ossadas... Ouve alem marulhar o Cedron espuma...
Vinha a noite a fugir pelas paragens cerulas Pairar sobre a cidade — esplendida Stambul! O estellifero manto era um collar de pérolas Espalhadas por Deus pelo infinito azul! O Nordeste bramia, e nos d...
Passaste sylphide A' luz da lua Co'a face nua Sem ter um véo ! Eu vi-te pallida Olhar chorando De quando em quando Pr'o ermo céo ! Alvejam cómoros Dos nevoeiros ! Como os coqueiros São espectraes ! Fa...
No ardente craneo seu, bulhava da poesia O férvido escarcéo ! A'cima d'este mundo insano, estrepitoso, O seu augusto vulto ergueu-se luminoso, Sublime até o céo ! Su'alma sempre foi da magoa inabaláve...
(POPE) Quando reponta a lua, a lâmpada nocturna, No transparente azul e esparge a luz serena, E sopro algum não quebra essa soidão soturna, Nem nuve'alguma tolda essa solemne scena; E quando cinge a l...
Eu amo a rosa do prado — Astro da várzea esquecido — Mirando o rosto magoado No espelho d'agoa polido. Deus que inunda de fulgores O triste olhar das estrellas, E nunca negou amores Aos corações das d...
As noites de vigília Fundo sigillo imprimem-me na face ! São tristes noites quando, da família E de tudo o que se ama longe está-se! Eu penso n'ella e me estremece o peito.. Ai — se eu pudesse vel-a !...
Oh ! natureza ! eu morro acabrunhado Por tantos desenganos ! Hoje me encontras mergulhado em dores - Dia de immensa luz ! dia de flores ! Oh ! dia de meus annos ! Ao sol de Maio a primavera entorna Vi...
Donzella ! vem que é noite e a lua já derrama Do céo azul, profundo, o pallido clarão ! A brisa a ciciar parece que te chama A gosar junto a mim o amor na solidão ! Oh ! vem — tudo é silencio e apenas...
Estrella, que eu procuro, E vejo alem banhada Nos fogos d'alvorada, No sol do meu futuro ! Nuvem d'amor doirada Do céo no fundo escuro... Rosa d'aroma puro,. Sonho, utopia, fada... Se tudo desparece,...
Quero habitar comtigo aquella casa, Que alem no morro a branquejar se vê, Onde de tarde um bando de andorinhas Pousa na cobertura de sapê. Ha na frente um jardim ; e pela cerca A madre-silva enlaça-se...
Moça infeliz onde é que vaes tão cedo ? ! A estrella d'alva lá do céo te enxerga, A brisa beija-te a madeixa á medo, E o cardo molle á beira d'agoa verga. Corres por baixo da ramagem, triste, Teu rost...
Teus olhos são dois desejos Da mais alta aspiração ; Mostram, que tens sentimento, Dizem, que tens coração. São as estrellas da noite Punhado de olhos azues, Que Deus formou, similhantes Aos olhos que...
Tout est htmière, lout esl joie ! (VICTOR HUGO.) Que noite ! a brisa, amor, bafejarte na espalda Essa madeixa loura! Suspiras sacudindo a candida grinalda, Que virgindade doura! Não vês ? a lua cheia...
E' tarde ! o sol se esconde flammejante No saudoso horisonte... Não vês, Elisa, as nevoas do crepúsculo Nas orlas do alto monte ? ! A noite se avisinha taciturna... Da cachoeira apenas A fria queda se...
É noite ! cheio de estrellas, O azul do céo resplandece, E a folhagem se estremece Das mornas auras aos beijos ; E os sylphos dansam sorrindo Sobre o lago adormecido, E o peito pulsa opprimido Na febr...
Tu vaes ! Que nuvem reveste Teus olhos d'azul celeste D'onde em fio o pranto cáe ! São justas as tuas queixas, Não só porque o berço deixas, Mas porque deixas teu pae ! Dissipas tantos anhelos, Tantos...
(VICTOR HUGO) Oh ! povo ! aquelle craneo ainda está fechado ; Nenhuma idéa grande ali tem penetrado, Nenhum pensar o agita ! Mas d'essa fronte augusta ha de saltar um dia, Quando a luz ínunda-la, a es...
(Á VALENTIM MAGALHÃES) É triste ver, sangrento no crepúsculo, Exangue, descambar o sol, sem vida, Como de um padecente no patibulo A cabeça abatida, E quando, pela estrada solitária, Quem passa escuta...
Ha alguém, que te segue e em te seguir não cansa, Aos teus olhos occulto, e amando-te, creança, Vê um rastro celeste em cada passo teu — E esse alguém que delira, e vive só de amar-te Esse alguém, que...
Passaste um dia junto a mim de súbito, Desde esse instante em que te vi amei-te ! E apenas tinhas sobre a fronte angélica, Singela rosa por singelo enfeite ! Longa e lustrosa cabelleira d'ebano Cahia...
Cesl une ârne charmante! (DIDEUOT ) É linda essa creança, Modesta e casta e mansa; É como a luz que lança Dos anjos o esplendor ! De seu olhar o lume Dá brilhos em cardume No lôbrego negrume Do mais p...
Anjo das trancas louras ! eu quizera, Rosa fresca da minha primavera, Flor — mais que as outras flores, Nas mattas virgens fabricar meu ninho, Longe do mundo, e lá viver sósinho Comtigo — meus amores...
Senhora! é no principio o amor o espelho mágico Onde a mulher toureira, alegre ou melancólica, Seu rosto vae mirar ! Como a virtude, o amor, quando se embebe no intimo, Expulsa d'elle o mal e o vicio...
A madrugada acorda E tênue luz desata, D'aroma o vai trasborda, Referve a cataracta... Lá, da lagoa á borda A rosa se retrata... Que musica na mata ! A madrugada acorda ! E a virgem no seu leito, Meu...
Ha d'este livro, que ides lêr, nas paginas, Ou tristes, ou risonhos, Os quadros mal traçados, mas verídicos Dos meus primeiros sonhos. Não m'os inspira o mundo — orbita escura De hiantes precipícios,...
O sol dormente no horisonte toge, Tingindo as nuvens de rubente cor ; Sosinho, vendo escurecer o dia, Vou me abysmando n'um sonhar d'amor. Por sobre a terra já desdobra a noite Seu denso manto de fera...
Hour of love, of prayers . Que sons que o echo traz! dulcissima harmonia Na soidão vem morrer ! No seio a me infundir doce melancolia Se apossa do meu ser ! E a muza da saudade, essa visão de amores,...
Flores, que abris o rubro e pudoroso cálice A' doce inundação dos matinaes fulgores ; Flores, deixae, deixae, que o vosso aroma exhale-se, Enlaçae-vos e ornae o seu sepulchro, flores ! Igneo, flammant...
É noite ! o céo arreia-se d'estrellas A terra a illuminar ! Por entre as ramas da taquara verde Peneira-se o luar! Enche os ares o aroma, que transpiram As flores da mangueira ! Dos sertanejos os semb...
Abre-te flor ! thesouro E de innocencia cofre ! Dorme em teu calix d'ouro O matutino aljofre ! Eia ! não vês creança ? Alem desponta o sol! Desprende a loira trança Ao lúcido arreból! Tu és — faceira...
Ergue-se a lua na cerulea tela Rutilam astros e palpita o mar, Abrem-se os seios da magnolia bella, Fecham-se as palmas do gentil palmar ! E' bella a noite : tem a brisa — afagos, Verdura — os prados,...
No mundo os rumores cessam, No campo adormece a flor; Só no céo desperta a lua, Só na terra o trovador ! Depois que o mundo calou-se, Depois que a lua surgio, Leve canoa resvala Por sobre as agoas d'u...