Olavo Bilac
Cego, em febre a cabeça, a mão nervosa e fria, Trabalha. A alma lhe sai da pena, alucinada, E enche-lhe, a palpitar, a estrofe iluminada De gritos de triunfo e gritos de agonia. Prende a idéia fugaz;...
Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia Assim! de um sol assim! Tu, desgrenhada e fria, Fria! postos nos meus os teus olhos molhados, E apertando nos teus os meus dedos gelados... E um dia assim! de...
Sonho que estás à porta... Estás – abro-te os braços! – quase morta, Quase morta de amor e de ansiedade... De onde ouviste o meu grito, que voava, E sobre as asas trêmulas levava As preces da saudade?...
Quando do teu violino, as asas entreabrindo Mansamente no espaço , iam-se as notas quérulas, Anjos de olhos azuis, às duas mãos partindo Os seus cofres de pérolas, - Minhas crenças de amor, esquecidas...
Maldito aquele dia, em que abriste em meu seio, Cruel, esta paixão, como, ampla e iluminada, Uma clareira verde, aberta ao sol, no meio Da espessa escuridão de uma selva cerrada! Ah! três vezes maldit...
De qual de vós desceu para o exílio do mundo A alma desta mulher, astros do céu profundo? Dorme talvez agora... Alvíssimas, serenas, Cruzam-se numa prece as suas mão pequenas. Para a respiração suavís...
Se por vinte anos, nesta furna escura, Deixei dormir a minha maldição, - Hoje, velha e cansada da amargura, Minh’alma se abrirá como um vulcão. E, em torrentes de cólera e loucura, Sobre a tua cabeça...
Sobre minh’alma, como sobre um trono, Senhor brutal, pesa o aborrecimento. Como tardes em vir, último outono, Lançar-me a folhas últimas ao vento! Oh! dormir no silêncio e no abandono, Só, sem um sonh...
I Ah! finda o inverno! adeus, noites, breve esquecidas, Junto ao fogo, com as mãos estreitamente unidas! Abracemo-nos muito! adeus! um beijo ainda! Prediz-me o coração que é o nosso amor que finda, Há...
I O castelo Sobre os rochedos, longe, o castelo aparece, Dominando a extensão das florestas sombrias. A tarde cai. O vento abranda. O ar escurece. E Vilfredo caminha entre as neblinas frias. Vai vê-la...
(Ato III, cena V) JULIETA: Por que partir tão cedo? inda vem longe o dia... Ouves? é o rouxinol. Não é da cotovia Esta encantada voz. Repara, meu amor: Quem canta é o rouxinol na romãzeira em flor. To...
Como a alma pura, que teu corpo encerra, Podes, tão bela e sensual, conter? Pura demais para viver na terra, Bela demais para no céu viver... Amo-te assim! – exulta, meu desejo! É teu grande ideal que...
Nessa pupila rútila e molhada, Refúgio arcano e sacro da Ternura, A ampla noite do gozo e da loucura Se desenrola, quente e embalsamada. E quando a ansiosa vista desvairada Embebo às vezes nessa noite...
Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto. Outono... Rodopiando, as folhas amarelas Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto... Por que, belo navi...
I Branca... Vi-te pequena: ias rezando Para a primeira comunhão: Toda de branco, murmurando, Na fronte o véu, rosas na mão. Não ias só: grande era o bando... Mas entre todas te escolhi: Minh’alma foi...
No ar sossegado um sino canta, Um sino canta no ar sombrio... Pálida, Vênus se levanta... Que frio! Um sino canta. O campanário Longe, entre névoas, aparece... Sino, que cantas solitário, Que quer diz...
Um horror grande e mudo, um silêncio profundo No dia do Pecado amortalhava o mundo. E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo, Disse: “Chega-te a mim!...
Tu, grande Mãe!... do amor de teus filhos escrava, Para teus filhos és, no caminho da vida, Como a faixa de luz que o povo hebreu guiava À longe Terra Prometida. Jorra de teu olhar um rio luminoso. Po...
Já toda a terra adormece. Sai um soluço da flor. Rompe de tudo um rumor, Leve como o de uma prece. A tarde cai. Misterioso, Geme entre os ramos o vento. E há por todo o firmamento Um anseio doloroso....
Ninguém soube quem era o Cavaleiro Pobre, Que viveu solitário, e morreu sem falar: Era simples e sóbrio, era valente e nobre, E pálido como o luar. Antes de se entregar às fadigas da guerra, Dizem que...
Este é o altivo pecador sereno, Que os soluços afoga na garganta, E, calmamente, o copo de veneno Aos lábios frios sem tremer levanta. Tonto, no escuro pantanal terreno Rolou. E, ao cabo de torpeza ta...
Olha estas velhas árvores, mais belas Do que as árvores novas, mais amigas: Tanto mais belas quanto mais antigas, Vencedoras da idade e das procelas... O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas Vive...
Quem o encanto dirá destas noites de estio? Corre de estrela a estrela um leve calefrio, Há queixas doces no ar... Eu, recolhido e só, Ergo o sonho da terra, ergo a fronte do pó, Para purificar o cora...
Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade Solto para onde estás, e fico de ti perto! Como, depois do sonho, é triste a realidade! Como tudo, sem ti, fica depois deserto! Sonho... Minha alma voa. O a...
O teu lugar vazio!... E esteve cheio, Cheio de mocidade e de ternura! Como brilhava a tua formosura! Que luz divina te dourava o seio! Quando a camisa tépida despias, - Sob o reflexo do cabelo louro,...
Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos Numa palpitação de flores e de ninhos. Dourava o sol de outubro a areia dos caminhos (Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos. Verão. (Lembras-...
Paixão sem grita, amor sem agonia, Que não oprime nem magoa o peito, Que nada mais do que possui queria, E com tão pouco vive satisfeito... Amor, que os exageros repudia, Misturado de estima e de resp...
Quando uma virgem morre, uma estrela aparece, Nova, no velo engaste azul do firmamento: E a alma da que morreu, de momento em momento, Na luz da que nasceu palpita e resplandece. Ó vós, que, no silênc...
Ficas a um canto da sala, Olhas-me e finges que lês... Ainda uma vez te ouço a fala, Olho-te ainda uma vez; Saio... Silêncio por tudo: Nem uma folha se agita; E o firmamento, amplo e mudo, Cheio de es...
A um Poeta morto Quando a primeira vez a harmonia secreta De uma lira acordou, gemendo, a terra inteira, - Dentro do coração do primeiro poeta Desabrochou a flor da lágrima primeira. E o poeta sentiu...
Ah! quem nos dera que isto, como outrora, Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera Que inda juntos pudéssemos agora Ver o desabrochar da primavera! Saíamos com os pássaros e a aurora. E, no chão, sobre o...
Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava, O que a boca não diz, o que a mão não escreve? - Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve, Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava... O...
Por que me vens, com o mesmo riso, Por que me vens, com a mesma voz, Lembrar aquele Paraíso, Extinto para nós? Por que levantas esta lousa? Por que, entre as sombras funerais, Vens acordar o que repou...
I Noite ainda, quando ela me pedia Entre dois beijos que me fosse embora, Eu, com os olhos em lágrimas, dizia: “Espera ao menos que desponte a aurora! Tua alcova é cheirosa como um ninho... E olha que...
Este, que um deus cruel arremessou à vida, Marcando-o com o sinal da sua maldição, - Este desabrochou como a erva má, nascida Apenas para aos pés ser calcada no chão. De motejo em motejo arrasta a alm...
Se ao mesmo gozo antigo me convidas, Com esses mesmos olhos abrasados, Mata a recordação das horas idas, Das horas que vivemos apartados! Não me fales das lágrimas perdidas, Não me fales dos beijos di...
As nuvens, que, em bulcões, sobre o rio rodavam, Já, com o vir de manhã, do rio se levantam. Como ontem, sob a chuva, estas águas choravam! E hoje, saudando o sol, como estas águas cantam! A estrela,...
Os anos matam e dizimam tanto Como as inundações e como as pestes... A alma de cada velho é um Campo-Santo Que a velhice cobriu de cruzes e ciprestes Orvalhados de pranto. Mas as almas não morrem como...
Já me não amas? Basta! Irei, triste, e exilado Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho... Adeus, carne cheirosa! Adeus, primeiro ninho Do meu delírio! Adeus, belo corpo adorado! Em ti, como num...
Chove. Que mágoa lá fora! Que mágoa! Embruscam-se os ares Sobre este rio que chora Velhos e eternos pesares. E sinto o que a terra sente E a tristeza que diviso, Eu, de teus olhos ausente, Ausente de...
Para a porta do céu, pálida e bela, Ida as asas levanta e as nuvens corta. Correm os anjos: e a criança morta Foge dos anjos namorados dela. Longe do amor materno o céu que importa? O pranto os olhos...