Vinicius de Moraes
Sente como vibra Doidamente em nós Um vento feroz Estorcendo a fibra Dos caules informes E as plantas carnívoras De bocas enormes Lutam contra as víboras E os rios soturnos Ouve como vazam A água corr...
De manhã escureço De dia tardo De tarde anoiteço De noite ardo. A oeste a morte Contra quem vivo Do sul cativo O este é meu norte. Outros que contem Passo por passo : Eu morro ontem Nasço amanhã Ando...
Uma lua no céu apareceu Cheia e branca; foi quando, emocionada A mulher a meu lado estremeceu E se entregou sem que eu dissesse nada. Larguei-as pela jovem madrugada Ambas cheias e brancas e sem véu P...
Aqui jaz o Sol Que criou a aurora E deu luz ao dia E apascentou a tarde. O mágico pastor De mãos luminosas Que fecundou as rosas E as despetalou. Aqui jaz o Sol O andrógino meigo E violento, que Possu...
Por seres quem me fôste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada Por seres de uma rara formosura Mau grado a vida dura e atormentada...
Mais um ano na estrada percorrida Vem, como o astro matinal, que a adora Molhar de puras lágrimas de aurora A morna rosa escura e apetecida. E da fragrante tepidez sonora No recesso, como ávida ferida...
Depois foi só. O amor era mais nada Sentiu-se pobre e triste como Job Um cão veio lamber-lhe a mão na estrada Espantado parou. Depois foi só. Depois veio a poesia ensimesmada Em espelhos. Sofreu de fa...
Essa mulher que se arremessa, fria E lúbrica aos meus braços, e nos seios Me arrebata e me beija e balbucia Versos, votos de amor e nomes feios Essa mulher, flor de melancolia Que se ri dos meus pálid...
Que angústia estar sozinho na tristeza E na prece! que angústia estar sozinho Imensamente, na inocência ! acesa A noite, em brancas trevas o caminho Da vida, e a solidão do borborinho Unindo as almas...
Distante o meu amor, se me afigura O amor como um patético tormento Pensar nele é morrer de desventura Não pensar é matar meu pensamento. Seu mais doce desejo se amargura Todo o instante perdido é um...
Poeta, um pouco à tua maneira E para distrair o spleen Que estou sentindo vir a mim Em sua ronda costumeira Folheando-te, reencontra a rara Delícia de me deparar Com tua sordidez preclara Na velha fot...
Nas tardes da fazenda há muito azul de mais. Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora Mastigando um capim, o peito nu de fora No pijama irreal de há três anos atrás. Desço o rio no vau dos pequenos ca...
I Mas o instante passou. A carne nova Sente a primeira fibra enrijecer E o seu sonho infinito de morrer Passa a caber no berço de uma cova. Outra carne virá. A primavera É carne, o amor é seiva eterna...
Inverno, doce inverno das manhãs Translúcidas, tardias e distantes Propício ao sentimento das irmãs E ao mistério da carne das amantes Quem és, que transfiguras as maçãs Em iluminações dessemelhantes...
De tanta graça e de leveza tanta Que quando sobre mim, como a teu jeito Eu tão de leve sinto-te no peito Que o meu próprio suspiro te levanta. Tu, contra quem me esbato liqüefeito Rocha branca! brancu...
Nascentes efêmeras Em clareiras súbitas Entre as luzes tardas Do imenso crepúsculo. Negros megalitos Em doce decúbito Sob o peso frágil Da pálida abóbada. Calmo, subjacente O vale infinito A estender-...
Pelas auroras imobilizadas No instante anterior; pelos gerais Milagres da matéria; pela paz Da matéria ; pelas transfiguradas Faces da História; pelo conteúdo Da História e em nome de seus grandes ido...
Passem-se dias, horas, meses, anos Amadureçam as ilusões da vida Prossiga ela sempre dividida Entre compensações e desenganos Faça-se a carne mais envilecida Diminuam os bens, cresçam os danos Vença o...
Quando chegares e eu te vir chorando De tanto te esperar, que te direi ? E da angústia de amar-te, te esperando Reencontrada, como te amarei? Que beijo teu de lágrimas terei Para esquecer o que vivi l...
Inelutàvelmente tu Rosa sobre o passeio Branca! e a melancolia Na tarde do seio. As cássias escorrem Seu ouro a teus pés Conheço o soneto Porém tu quem és ? O madrigal se escreve : Se é do teu costume...
O sol, que pelas ruas da cidade Revela as marcas do viver humano Sobre teu belo rosto soberano Espalha apenas pura claridade. Nasceste para o sol; és mocidade Em plena floração, fruto sem dano Rosa qu...
Por que tens, por que tens olhos escuros E mãos lânguidas, loucas, e sem fim Quem és, que és tu, não eu, e estás em mim Impuro, como o bem que está nos puros ? Que paixão fêz-te os lábios tão maduros...
São demais os perigos desta vida Para quem tem paixão, principalmente Quando uma lua chega de repente E se deixa no céu, como esquecida. E se ao luar que atua desvairado Vem se unir uma música qualque...
De repente do riso fêz-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fêz-se a espuma E das mãos espalmadas fêz-se o espanto. De repente da calma fêz-se o vento Que dos olhos desfez a...
Eu te amo, Maria, te amo tanto Que o meu peito me dói como em doença E quanto mais me seja a dor intensa Mais cresce na minha alma teu encanto. Como a criança que vagueia o canto Ante o mistério da am...
Oh rosa que raivosa Assim carmesim Quem te fêz zelosa O carme tão ruim ? Que anjo ou que pássaro Roubou tua côr Que ventos passaram Sobre o teu pudor Coisa milagrosa De rosa de mate De bom para mim Ro...
Maior amor nem mais estranho existe Que o meu, que não sossega a coisa amada E quando a sente alegre, fica triste E se a vê descontente, dá risada. E que só fica em paz se lhe resiste O amado coração,...
Feito só, sua máscara paterna Sua máscara tosca, de acridoce, Feição, sua máscara austerizou-se Numa preclara decisão eterna. Feito só, feito pó, desencantou-se Nele o íntimo arcanjo, a chama interna...
Tu me levaste, eu fui. . . Na treva, ousados Amamos, vagamente surpreendidos Pelo ardor com que estávamos unidos Nós que andávamos sempre separados. Espantei-me, confesso-te, dos brados Com que enchi...
De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei...
Como de cera E por acaso Fria no vaso A entardecer A pêra é um pomo Em holocausto À vida, como Um seio exausto Entre bananas Supervenientes E maçãs lhanas Rubras, contentes A pobre pêra : Quem manda s...
O teu perfume, amada! — em tua cartas Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas ! Relembro-as brancas, leves, fenecidas Pendendo ao longo de corolas fartas. Relembro-as, vou... — nas terras percorrida...
Amo-te tanto, meu amor... não cante O humano coração com mais verdade.. Amo-te como amigo e como amante Numa sempre diversa realidade Amo-te afim, de um calmo amor prestante E te amo além, presente na...
Não te vira cantar sem voz, chorar Sem lágrimas, e lágrimas e estrelas Desencantar, e mudo recolhê-las Para lançá-las fulgurando ao mar ? Não te vira no bojo secular Das praias, desmaiar de êxtase nel...