Vinicius de Moraes

São demais os perigos desta vida Para quem tem paixão, principalmente Quando uma lua chega de repente E se deixa no céu, como esquecida. E se ao luar que atua desvairado Vem se unir uma música qualque...
O sol, que pelas ruas da cidade Revela as marcas do viver humano Sobre teu belo rosto soberano Espalha apenas pura claridade. Nasceste para o sol; és mocidade Em plena floração, fruto sem dano Rosa qu...
Feito só, sua máscara paterna Sua máscara tosca, de acridoce, Feição, sua máscara austerizou-se Numa preclara decisão eterna. Feito só, feito pó, desencantou-se Nele o íntimo arcanjo, a chama interna...
Amo-te tanto, meu amor... não cante O humano coração com mais verdade.. Amo-te como amigo e como amante Numa sempre diversa realidade Amo-te afim, de um calmo amor prestante E te amo além, presente na...
Nascentes efêmeras Em clareiras súbitas Entre as luzes tardas Do imenso crepúsculo. Negros megalitos Em doce decúbito Sob o peso frágil Da pálida abóbada. Calmo, subjacente O vale infinito A estender-...
De manhã escureço De dia tardo De tarde anoiteço De noite ardo. A oeste a morte Contra quem vivo Do sul cativo O este é meu norte. Outros que contem Passo por passo : Eu morro ontem Nasço amanhã Ando...
Passem-se dias, horas, meses, anos Amadureçam as ilusões da vida Prossiga ela sempre dividida Entre compensações e desenganos Faça-se a carne mais envilecida Diminuam os bens, cresçam os danos Vença o...
Pelas auroras imobilizadas No instante anterior; pelos gerais Milagres da matéria; pela paz Da matéria ; pelas transfiguradas Faces da História; pelo conteúdo Da História e em nome de seus grandes ido...
Como de cera E por acaso Fria no vaso A entardecer A pêra é um pomo Em holocausto À vida, como Um seio exausto Entre bananas Supervenientes E maçãs lhanas Rubras, contentes A pobre pêra : Quem manda s...
Depois foi só. O amor era mais nada Sentiu-se pobre e triste como Job Um cão veio lamber-lhe a mão na estrada Espantado parou. Depois foi só. Depois veio a poesia ensimesmada Em espelhos. Sofreu de fa...
Poeta, um pouco à tua maneira E para distrair o spleen Que estou sentindo vir a mim Em sua ronda costumeira Folheando-te, reencontra a rara Delícia de me deparar Com tua sordidez preclara Na velha fot...
De tanta graça e de leveza tanta Que quando sobre mim, como a teu jeito Eu tão de leve sinto-te no peito Que o meu próprio suspiro te levanta. Tu, contra quem me esbato liqüefeito Rocha branca! brancu...
Mais um ano na estrada percorrida Vem, como o astro matinal, que a adora Molhar de puras lágrimas de aurora A morna rosa escura e apetecida. E da fragrante tepidez sonora No recesso, como ávida ferida...
Distante o meu amor, se me afigura O amor como um patético tormento Pensar nele é morrer de desventura Não pensar é matar meu pensamento. Seu mais doce desejo se amargura Todo o instante perdido é um...
De repente do riso fêz-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fêz-se a espuma E das mãos espalmadas fêz-se o espanto. De repente da calma fêz-se o vento Que dos olhos desfez a...
Por seres quem me fôste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada Por seres de uma rara formosura Mau grado a vida dura e atormentada...
Inverno, doce inverno das manhãs Translúcidas, tardias e distantes Propício ao sentimento das irmãs E ao mistério da carne das amantes Quem és, que transfiguras as maçãs Em iluminações dessemelhantes...
Oh rosa que raivosa Assim carmesim Quem te fêz zelosa O carme tão ruim ? Que anjo ou que pássaro Roubou tua côr Que ventos passaram Sobre o teu pudor Coisa milagrosa De rosa de mate De bom para mim Ro...
Não te vira cantar sem voz, chorar Sem lágrimas, e lágrimas e estrelas Desencantar, e mudo recolhê-las Para lançá-las fulgurando ao mar ? Não te vira no bojo secular Das praias, desmaiar de êxtase nel...
Quando chegares e eu te vir chorando De tanto te esperar, que te direi ? E da angústia de amar-te, te esperando Reencontrada, como te amarei? Que beijo teu de lágrimas terei Para esquecer o que vivi l...
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