Mário Quintana
Aqui e ali reses pastando imóveis como num presépio a mata ocultando o xixi das fontes uma cidadezinha de nariz pontudo furava o céu depois sumia-se lentamente numa curva e a gente olhava olhava sem n...
Naquela mistura fumegante e colorida que a pá não para de agitar vê-se o infinito olhar de um moribundo o primeiro olhar de um primeiro amor um trem a passar numa gare deserta uma estrela remota um pi...
Um dia aparecerão minhas tatuagens invisíveis: marinheiro do além, encontrarei nos portos caras amigas, estranhas caras, desconhecidos tios mortos e eles me indagarão se é muito longe ainda o outro mu...
O gato, que mora no mundo para sempre perdido do cinema silencioso, atravessa o país do tapete, onde se abrem flores falsamente tropicais. Ao pé da escada, por força do hábito, a avozinha morta começa...
Não sei o que querem de mim essas árvores essas velhas esquinas para ficarem tão minhas só de as olhar um momento. Ah! se exigirem documentos aí do Outro Lado, extintas as outras memórias, só poderei...
Perdão! Eu distraí-me ao receber a Extrema-Unção. Enquanto a voz do padre zumbia como um besouro eu pensava era nos meus primeiros sapatos que continuavam andando que continuam andando — rotos e feliz...
Os antigos retratos de parede não conseguem ficar longo tempo abstratos. Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados porque eles nunca se desumanizam de todo. Jamais te voltes para trás de repente. Nã...
Que límpido o cristal de abril!... Um grito não vai como os da noite — para os extramundos... Todas as vozes, todas as palavras ditas — cigarras presas dentro do globo azul — vão em redor do mundo e a...
Aminha alma era uma paisagem hirsuta: cactos, palmas híspidas, estranhas flores que atemorizavam (seriam aranhas carnívoras?) parecia um texto obscuro com pontuação excessiva: tudo porque me estavam a...
As palavras espiam como animais: umas, rajadas, sensuais, que nem panteras... outras, escuras, furtivas raposas... mas as mais belas palavras estão pousadas nas frondes mais altas, como pássaros... O...
A vida é um incêndio: nela dançamos, salamandras mágicas. Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta? Em meio aos toros que desabam, cantemos a canção das chamas! Cantemos a canção da vida...
Um cartaz luminoso ri no ar. Ó noite, ó minha nêga toda acesa de letreiros!... Pena é que a gente saiba ler... Senão tu serias de uma beleza única inteiramente feita para o amor dos nossos olhos.
Sem o coaxar dos sapos ou o cri-cri dos grilos como é que poderíamos dormir tranquilos a nossa eternidade? Imagina uma noite sem o palpitar das estrelas sem o fluir misterioso das águas. Não digo que...
Eu fiz um poema belo e alto como um girassol de Van Gogh como um copo de chope sobre o mármore de um bar que um raio de sol atravessa eu fiz um poema belo como um vitral claro como um adro... Agora nã...
Sabes? Os cabelos da morte são entrelaçados de flores. Não de flores mortas como essas inertes sempre-vivas, Mas inquietas e misteriosas como os não desfolhados malmequeres Ou bravias como as pequenas...
... mas eu queria ter nascido numa dessas casas de meia-água com o telhado descendo logo após as fachadas só de porta e janela e que tinham, no século, o carinhoso apelido de cachorros sentados. Porém...
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos... Trago-te estas mãos vazias Que vão tomando a forma do teu seio.
Como estranhas lembranças de outras vidas, que outros viveram, num estranho mundo, quantas coisas perdidas e esquecidas no teu baú de espantos... Bem no fundo, uma boneca toda estraçalhada! (isto não...
O que nos acontece nada tem com a gente o que nos acontece são simples acidentes que chegam de olhos fechados num jogo de cabra-cega e mesmo a morte é aquela conhecidíssima, aquela antiga brincadeira...
I Nossos gestos eram simples e transcendentais. Não dissemos nada nada de mais... Mas a tarde ficou transfigurada — como se Deus houvesse mudado imperceptivelmente um invisível cenário. II Eu te amo t...
Amenina dança sozinha por um momento. Amenina dança sozinha com o vento, com o ar, com o sonho de olhos imensos... A forma grácil de suas pernas ele é que as plasma, o seu par de ar de vento, o seu pa...
Uns vão de guarda-chuva e galochas, outros arrastam um baú de guardados... Inúteis precauções! Mas, se levares apenas as visões deste lado, nada te será confiscado: todo o mundo respeita os sonhos de...
Nem tudo pode estar sumido ou consumido... Deve — forçosamente — a qualquer instante formar-se, pobre amigo, uma bolha de tempo nessa Eternidade... e conde — o mesmo barman no mesmo balcão, por trás a...
Todas as noites o sono nos atira da beira de um cais e ficamos repousando no fundo do mar. O mar onde tudo recomeça... Onde tudo se refaz... Até que, um dia, nós criaremos asas. E andaremos no ar como...
Celeste Bogarí... em que recanto da vida esse teu nome busco? Ou te criaste apenas nos delírios mansos da minha memória? Mas eu tenho a vaga... não, Celeste, eu tenho a nítida impressão de que eras co...
O poeta é belo como o Taj-Mahal feito de renda e mármore e serenidade O poeta é belo como o imprevisto perfil de uma árvore ao primeiro relâmpago da tempestade O poeta é belo porque os seus farrapos s...
As grandes damas usavam grandes chapéus, cheios de flores e de passarinhos. As flores feneceram, porque até as flores artificiais fenecem. Os passarinhos voaram e foram pousar nos últimos parques, ond...
Eu queria escrever uns versos para Ray Bradbury, o primeiro que, depois da infância, conseguiu encantar-me com suas histórias mágicas como no tempo em que acreditávamos no Menino Jesus que vinha deixa...
A vida é louca a vida é uma sarabanda é um corrupio... A vida múltipla dá-se as mãos como um bando de raparigas em flor e está cantando em torno a ti: Como eu sou bela, amor! Entra em mim, como em uma...
Era uma dessas mulheres que não se usam mais. Vestes de trevas e vidrilhos. Cabeleira trágica. Olheiras suspeitas. O grito horizontal da boca. Surgiu da noite. Sumiu pela última porta do poema.
O poeta canta a si mesmo porque nele é que os olhos das amadas têm esse brilho a um tempo inocente e perverso... O poeta canta a si mesmo porque num seu único verso pende — lúcida, amarga — uma gota f...
A lâmpada abre um círculo mágico sobre o papel onde escrevo. Sinto um ruído como se alguém houvesse arremessado uma pequenina pedra contra a vidraça, ou talvez seja uma asa perdida na noite. Espreguiç...
Senhora, eu vos amo tanto Que até por vosso marido Me dá um certo quebranto... Pois que tem que a gente inclua No mesmo alastrante amor Pessoa animal ou cousa Ou seja lá o que for, Só porque os banha...
As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis sobre um fundo de manchas já da cor da terra — como são belas as tuas mãos pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos... P...
Os olhos mais verdes Que as ondas amargas Um dia viremos Com barcos e remos Um dia... Dorme, filhinha... São vozes, são vento, são nada...
Olha, eu talvez seja esse cadáver desconhecido que avistam sob uma ponte com relativo interesse: nem sei mais se me matei se morri por distraído se me atiraram do cais — o mistério é mais profundo, mu...
Um morcego enormíssimo escureceu metade da cidade — uma nuvem negra, imóvel. Tivemos de as procurar às pressas e ir acendendo as velas com mãos trêmulas como se as erguêssemos diante de oratórios. E d...
Uma procissão de espantalhos, pela miséria colorida, pelos atalhos vinha: pediam vida, queriam vida! E as suas caras eram trágicas porque tinham todas a mesma expressão — que era o mesmo que não terem...
Se o poeta falar num gato, numa flor, num vento que anda por descampados e desvios e nunca chegou à cidade... se falar numa esquina mal e mal iluminada... numa antiga sacada... num jogo de dominó... s...
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas: há tempo... Quando se vê, já é 6ª-feira... Quando se vê, passaram 60 anos... Agora, é tarde demais para ser rep...
Não, não é uma série de pontos de exclamação — é uma avenida de álamos... E o que, e para quem, clamariam então?! Deserta está a cidade. Todas as avenidas, todas as ruas, todas as estradas atônitas se...
Se tu me amas, ama-me baixinho Não o grites de cima dos telhados Deixa em paz os passarinhos Deixa em paz a mim! Se me queres, enfim, tem de ser bem devagarinho, Amada, que a vida é breve, e o amor ma...
Há um grande silêncio que está sempre à escuta... E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa, qualquer coisa, seja o que for, desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje até...
Esse embalo das ondas Das ondas do mar Não é um embalo Para te ninar... O mar é embalado Pelos afogados! O canto do vento Do vento no mar Não é um canto Para te ninar... São eles que tentam Que tentam...
Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam voo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto alimentam-se um instante em cada...
Numa esquina do Labirinto às vezes avista-se a Lua. “Não! como é possível uma lua subterrânea?” (Mas cada um diz baixinho: Deus te abençoe, visão...)
Teu riso de vidro desce as escadas às cambalhotas e nem se quebra, Lili, meu fantasminha predileto! Não que tenhas morrido... Quem entra num poema não morre nunca (e tu entraste em muitos...) Muita ge...
As moças das cidades pequenas com o seu sorriso e o estampado claro de seus vestidos são a própria vida. Elas é que alvorotam a praça. Por elas é que os sinos festivamente batem, aos domingos. Por ela...
Nós, os marcianos, não sabemos nada de nada, por isso descobrimos coisas que de tão visíveis vocês poderiam até sentar em cima delas... Não brinco! Não minto! um dia um de nós (Van Gogh) pintou uma ca...
Sia Rosaura tirava a dentadura para comer Por isso ela tinha o sorriso postiço mais sincero da minha rua Dona Maruca fazia uns biscoitinhos minúsculos, estalantes e secos chamados mentirinhas Eduviges...