Carlos Drummond de Andrade

O fato ainda não acabou de acontecer e já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia. O marido está matando a mulher. A ulher ensangüentada grita. Ladrões arrombam o cofre. A polícia dissolve o...
Vivia jogado em casa. Os amigos o abandonaram quando rompeu com o chefe político. O jornal governista ridicularizava seus versos, os versos que ele sabia bons. Sentia-se diminuído na sua glória enquan...
Tenho vontade de — ponhamos amar por esporte uma loura o espaço de um dia. Certo me tornaria brinquedo nas suas mãos. Apanharia, sorriria mas acabado o jogo não seria mais joguete, seria eu mesmo. E e...
Nenhum desejo neste domingo nenhum problema nesta vida o mundo parou de repente os homens ficaram calados domingo sem fim nem começo. A mão que escreve este poema não sabe que está escrevendo mas é po...
Tijolo areia andaime água tijolo. O canto dos homens trabalhando trabalhando mais perto do céu cada vez mais perto mais — a torre. E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações. O pa...
No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigada...
Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão. No prato, a sopa esfria, cheia de escamas e debruçados na mesa todos contenmplam esse rom^ntico trabalho. Desgraçadamente falta uma letra, uma letr...
O poeta municipal discute com o poeta estadual qual deles é capaz de bater o poeta federal. Enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz.
Natal. O sino longe toca fino. Não tem neves, não tem gelos. Natal. Já nasceu o deus menino. As beatas foram ver, encontraram o coitadinho (Natal) mais o boi mais o burrinho e lá em cima a estrelinha...
A noite caiu na minh’alma, fiquei triste sem querer. Uma sombra veio vindo, veio vindo, me abraçou. Era a sombra de meu bem que morreu há tanto tempo. Me abraçou com tanto amor me apertou com tanto fo...
Eu não vi o mar. Não sei se o mar é bonito, não sei se ele é bravo. O mar não me importa. Eu vi a lagoa. A lagoa, sim. A lagoa é grande e calma também. Na chuva de cores da tarde que explode a lagoa b...
Na minha rua estão cortando árvores botando trilhos construindo casas. Minha rua acordou mudada. Os vizinhos não se conformam. Eles não sabem que a vida tem dessas exigências brutas. Só minha filha go...
E o amor sempre está nessa toada: Briga perdoa perdoa briga. Não se deve xingar a vida, a gente vive, depois esquece. Só o amor volta para brigar, Para perdoar, Amor cachorro bandido trem. Mas se não...
Um grito pula no ar como foguete. Vem da paisagem de barro úmido, caliça e andaimes hirtos. O sol cai sobre as coisas em placa fervendo. O sorveteiro corta a rua. E o vento brinca nos bigodes do const...
Eu também já fui brasileiro moreno como vocês. Ponteei viola, guiei forde e aprendi na mesa dos bares que o nacionalismo é uma virtude. Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se...
No azul do céu de metileno a lua irônica diurética é uma gravura de sala de jantar. Anjos da guarda em expedição noturna velam sonos púberes espantando mosquitos de cortinados e grinaldas. Pela escada...
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, Comprida história que não a...
Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos de...
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