Carlos Drummond de Andrade

A castidade com que abria as coxas e reluzia a sua flora brava. Na mansuetude das ovelhas mochas, e tão estreita, como se alargava. Ah, coito, coito, morte de tão vida, sepultura na grama, sem dizeres...
Não quero ser o último a comer-te. Se em tempo não ousei, agora é tarde. Nem sopra a flama antiga nem beber-te aplacaria sede que não arde em minha boca seca de querer-te, de desejar-te tanto e sem al...
À meia-noite, pelo telefone, conta-me que é fulva a mata do seu púbis. Outras notícias do corpo não quer dar, nem de seus gostos. Fecha-se em copas: “Se você não vem depressa até aqui nem eu posso cor...
No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio. Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence. Tu a levaste contigo.
No corpo feminino, esse retiro - a doce bunda - é ainda o que prefiro. A ela, meu mais íntimo suspiro, pois tanto mais a apalpo quanto a miro. Que tanto mais a quero, se me firo em unhas protestantes,...
Mulher andando nua pela casa envolve a gente de tamanha paz. Não é nudez datada, provocante. É um andar vestida de nudez, inocência de irmã e copo d’água. O corpo nem sequer é percebido pelo ritmo que...
Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça de magnificar meu membro. Sem que eu esperasse, ficastes de joelhos em posição devota. O que passou não é passado morto. Para sempre e um dia o pênis recolhe a p...
A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta; a língua lavra certo oculto botão, e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos. E lambe, lambilonga, lambilenta, a licorina gruta cabeluda,...
A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica. Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios. Ora - murmura a bunda - esses garoto...
Doce fantasma, por que me visitas como em outros tempos nossos corpos se visitavam? Tua transparência roça-me a pele, convida a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca um beijo recebeu de ros...
Como vai ser este verão, querida, com a praia, aumentada/ diminuída? A draga, esse dragão, estranho creme de areia e lama oferta ao velho Leme. Fogem banhistas para o Posto Seis, O Posto Vinte... Inva...
Ó que lance extraordinário: aumentou o meu salário e o custo de vida, vário, muito acima do ordinário, por milagre monetário deu um salto planetário. Não entendo o noticiário. Sou um simples operário,...
A gente passa, a gente olha, a gente pára e se extasia. Que aconteceu com esta cidade da noite para o dia? O Rio de Janeiro virou flor nas praças, nos jardins dos edifícios, no Parque do Flamengo nem...
A kiss, un baiser, un bacio para a terra que o acolheu. Assim quis nosso Stefan Baciu saudar o Rio antigo e seu. Não muito antigo, mas trint’anos tecem uma quase eternidade. Entre danos e desenganos,...
O amor antigo vive de si mesmo, não de cultivo alheio ou de presença. Nada exige nem pede. Nada espera, mas do destino vão nega a sentença. O amor antigo tem raízes fundas, feitas de sofrimento e de b...
Atirei um limão n’água e fiquei vendo na margem. Os peixinhos responderam: Quem tem amor tem coragem. Atirei um limão n’água e caiu enviesado. Ouvi um peixe dizer: Melhor é o beijo roubado. Atirei um...
O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar
Além da Terra, além do Céu, no trampolim do sem-fim das estrelas, no rastro dos astros, na magnólia das nebulosas. Além, muito além do sistema solar, até onde alcançam o pensamento e o coração, vamos!...
O verso não, ou sim o verso? Eis-me perdido no universo do dizer, que, tímido, verso, sabendo embora que o que lavra só encontra meia palavra.
Tarde, a vida me ensina esta lição discreta: a ode cristalina é a que se faz sem poeta.
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