Cecília Meireles
MINHA vida bela, Minha vida bela, nada mais adianta si não há janela para a voz que canta... Preparei um verso com a melhor medida: rôsto do universo, bôca da minha vida. Ah! mas nada adianta, olhos d...
DEVIAM ser Venus e Júpiter, sim, que ao menos, ao menos, olhassem por mim, gerando caminhos claros e serenos por onde passar quem vinha nutrida de secretos vinhos, perdida, perdida, de amor e pensar....
NÃO CANTES, não cantes, porque veem de longe os náufragos, veem os prêsos, os tortos, os monges, os oradores, os suicidas. Veem as portas, de novo, e o frio das pedras, das escadas, e, numa roupa pret...
OS MENDIGOS maiores não dizem mais, nem fazem nada. Sabem que é inútil e exaustivo. Deixam-se estar. Deixam-se estar. Deixam-se estar ao sol e à chuva, com o mesmo ar de completa coragem, longe do cor...
CABECINHA boa de menino triste, de menino triste que sofre sòzinho, que sòzinho sofre, — e resiste. Cabecinha boa de menino ausente, que de sofrer tanto se fez pensativo, e não sabe mais o que sente.....
ONDE é que dói na minha vida, para que eu me sinta tão mal? quem foi que me deixou ferida de ferimento tão mortal? Eu parei diante da paisagem: e levava uma flor na mão. Eu parei diante da paisagem pr...
MINHA esperança perdeu seu nome... Fechei meu sonho, para chamá-la. A tristeza transfigurou-me como o luar que entra numa sala. O último passo do destino parará sem forma funesta, e a noite oscilará c...
ENTRE MIM e mim, há vastidões bastantes para a navegação dos meus desejos afligidos. Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos. Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a at...
I PROCUREI-ME nesta água da minha memória que povoa tôdas as distâncias da vida e onde, como nos campos, se podia semear, talvez, tanta imagem capaz de ficar florindo... Procurei minha forma entre os...
SUSPIRO do vento, lágrima do mar, êste tormento ainda pode acabar? De dia e de noite, meu sonho combate: veem sombras, vão sombras, não há quem o mate! Suspiro do vento, lágrima do mar, as armas que i...
REPARA na canção tardia que tìmidamente se eleva, num arrulho de fonte fria. O orvalho treme sôbre a treva e o sonho da noite procura a voz que o vento abraça e leva. Repara na canção tardia que ofere...
HOMEM vulgar! Homem de coração mesquinho! eu te quero ensinar a arte sublime de rir. Dobra essa orelha grosseira, e escuta o ritmo e o som da minha gargalhada: Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Não vês?...
VOLTO a cabeça para a montanha e abandono os pés para o mar. — Coitado de quem está sòzinho e inventa sonhos com que sonhar! Minhas tranças descem pela casa abaixo, entram nas paredes, vão te procurar...
CANTAR de beira de rio; água que bate na pedra, pedra que não dá resposta. Noite que vem por acaso, trazendo nos lábios negros o sonho de que se gosta. Pensamento do caminho pensando o rosto da flor q...
NOITE perdida, Não te lamento: embarco a vida no pensamento, busco a alvorada do sonho isento, puro e sem nada, — rosa encarnada, intacta, ao vento. Noite perdida, noite encontrada, morta, vivida, e r...
DIGO-TE que podes ficar de olhos fechados sôbre o meu peito, porque uma ondulação maternal de onda eterna te levará na exata direção do mundo humano. Mas no equilíbrio do silêncio, no tempo sem côr e...
QUANDO o sol ia acabando e as águas mal se moviam, tudo que era meu chorava da mesma melancolia. Outras lágrimas nasceram com o nascimento do dia: só de noite esteve sêco meu rosto sem alegria. (Talve...
GOSTO de gota d'água que se equilibra na fôlha rasa, tremendo ao vento. Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra: e ela resiste, no isolamento. Seu cristal simples reprime a forma, no instante...
LINDA é a mulher e o seu canto, ambos guardados no luar. Seus olhos doces de pranto — quem os pode enxugar devagarinho com a bôca, ai! com a bôca, devagarinho... Na sua voz transparente giram sonhos d...
EU FUI a de mãos ardentes que, triste de ser nascida, fui subindo altas vertentes para a vida. E perguntava, à subida: «Ó mãos, porque sois ardentes?» Água fina que descia, flor em pedras debruçada, n...
RAMA das minhas árvores mais altas, deixa ir a flor! que o tempo, ao desprendê-la, roda-a no molde de noites e de albas onde gira e suspira cada estrêla. Deixa ir a flor! deixa-a ser asa, espaço, ritm...
AGORA é como depois de um entêrro. Deixa-me neste leito, do tamanho do meu corpo, junto à parêde lisa, de onde brota um sono vazio. A noite desmancha o pobre jôgo das variedades. Pousa a linha do hori...
QUEM VIU aquele que se inclinou sôbre palavras trémulas, de relêvo partido e de contôrno perturbado, querendo achar lá dentro o rôsto que dirige os sonhos, para ver si era o seu que lhe tivessem arran...
PASTORA de nuvens, fui posta a serviço por uma campina tão desamparada que não principia nem também termina, e onde nunca é noite e nunca madrugada. (Pastores da terra, vós tendes sossêgo, que olhais...
ESTOU tão cansada, tão cansada, estou tão cansada! Que fiz eu? Estive embalando, noite e dia, um coração que não dormia desde que o seu amor morreu. Eu lhe dizia: «Deixa a morte levar teu amor! Não fa...
PERMITE que feche os meus olhos, pois é muito longe e tão tarde! Pensei que era apenas demora, e cantando pus-me a esperar-te. Permite que agora emudeça: que me conforme em ser sòzinha. Há uma doce lu...
NUVEM, caravela branca no ar azul do meio dia: — quem te viu como eu te via? Rolaram trovões escuros pela vertente dos montes. Tremeram súbitas fontes. Depois, ficou tudo triste como o nome dos defunt...
ANDEI pelo mundo no meio dos homens: uns compravam joias, uns compravam pão. Não houve mercado nem mercadoria que seduzisse a minha vaga mão. Calado, Calado, me diga, Calado por onde se encontra minha...
NO DESEQUILÍBRIO dos mares, as proas giraram sòzinhas... Numa das naves que afundaram é que tu certamente vinhas. Eu te esperei todos os séculos, sem desespêro e sem desgôsto, e morri de infinitas mor...
MEUS OLHOS eram mesmo água, — te juro — mexendo um brilho vidrado, verde-claro, verde-escuro. Fiz barquinhos de brinquedo, — te juro — fui botando todos êles naquele rio tão puro........................
MÁQUINA de ouro a rodar na sombra, serra de cristal a serrar estrêlas... Caem pedaços de sono, entre os silêncios, em grandes flores, mornas e dóceis, com o pêso e a côr de vagas borboletas. Rostos de...
AQUI estou, junto à tempestade, chorando como uma criança que viu que não eram verdade o seu sonho e a sua esperança. A chuva bate-me no rosto e em meus cabelos sopra o vento. Vão-se desfazendo em des...
E AQUI estou, cantando. Um poeta é sempre irmão do vento e da água: deixa seu ritmo por onde passa. Venho de longe e vou para longe: mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho e não vi nada, porq...
NUM dia que não se adivinha, meus olhos assim estarão: e há de dizer-me: «Era a expressão que ela ùltimamente tinha.» Sem que se mova a minha mão nem se incline a minha cabeça nem a minha bôca estreme...
NUNCA eu tivera querido dizer palavra tão louca: bateu-me o vento na bôca, e depois no teu ouvido. Levou sòmente a palavra, deixou ficar o sentido. O sentido está guardado no rosto com que te miro, ne...
Ó TEMPOS de incerta esperança que assim vos desacreditastes! Cresceram nuvens sôbre a lua e o vento passou pelas hastes. Vinde vêr meu jardim sem flôres no presente nem no futuro, e a mão das águas pr...
FACE do muro tão plana, com o sabugueiro florido. O luar parece que abana as ramagens na parede. A noite tôda é um zumbido e um florir de vagalumes. A bôca morre de sêde junto à frescura dos galhos. A...
CONVÉM que o sonho tenha margens de nuvens rápidas e os pássaros não se expliquem, e os velhos andem pelo sol, e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticídio Convém tudo isso, e muito mais,...
MINHAS palavras são a metade de um diálogo obscuro continuado através de séculos impossíveis. Agora compreendo o sentido e a ressonância que também trazes de tão longe em tua voz. Nossas perguntas e r...
NÓS SOMOS como o perfume da flor que não tinha vindo: esperança do silêncio, quando o mundo está dormindo. Pareceu que houve o perfume... E a flor, sem vir, se acabou. Oh! abelha imaginativa! o que o...
IMENSAS noites de inverno, com frias montanhas mudas, e o mar negro, mais eterno, mais terrível, mais profundo. Este rugido das águas é uma tristeza sem forma: sobe rochas, desce fráguas, vem para o m...
MUTILADOS jardins e primaveras abolidas abriram seus miraculosos ramos no cristal em que pousa a minha mão. (Prodigioso perfume!) Recompuseram-se tempos, formas, côres, vidas... Ah! mundo vegetal, nós...
NO FIO da respiração, rola a minha vida monótona, rola o pêso do meu coração. Tu não vês o jôgo perdendo-se como as palavras de uma canção. Passas longe, entre nuvens rápidas, com tantas estrêlas na m...
ENCOSTEI-ME a ti, sabendo bem que eras sòmente onda. Sabendo bem que eras núvem, depús a minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil, fiquei sem poder chorar, quando caí...
ESTRELINHA de lata, assovio de vidro, no escuro do quarto do menino doente. A febre alarga os pulsos hirtos; mas dentro dos olhos ha um sol contente. Pássaro de prata sacudindo guisos no sonho mágico...
É MAIS fácil pousar o ouvido nas nuvens e sentir passar as estrêlas do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos. É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano e assistir, lá no fun...
DESDE o tempo sem número em que as origens se elaboram, se estendem para mim os teus braços eternos, que um estatuário de caminhos invisíveis construiu com a côr e o frio e o som morto de mármores, pa...
NINGUÉM abra a sua porta para ver que aconteceu: saímos de braço dado, a noite escura mais eu. Ela não sabe o meu rumo, eu não lhe pergunto o seu: não posso perder mais nada, si o que houve já se perd...
SUBITO pássaro dentro dos muros caído, pálido barco na onda serena chegado. Noite sem braços! Cálido sangue corrido. E imensamente o navegante mudado. Seus olhos densos apenas sabem ter sido. Seu lábi...
HUMIDO gôsto de terra, cheiro de pedra lavada — tempo inseguro do tempo! — sombra do flanco da serra, nua e fria, sem mais nada. Brilho de areias pisadas, sabor de folhas mordidas, — lábio da voz sem...
QUEM falou de primavera sem ter visto o teu sorriso, falou sem saber o que era........................... Pus o meu lábio indeciso na concha verde e espumosa modelada ao vento liso: tinha frescura de...
PASSARAM os ventos de Agosto, levando tudo. As árvores humilhadas bateram, bateram com os ramos no chão. Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas: os ninhos que os homens não viram nos...
DEIXA-TE estar embalado no mar noturno onde se apaga e acende a salvação. Deixa-te estar na exalação do sonho sem forma: em redor do horizonte, vigiam meus braços abertos, e por cima do céu estão preg...
TU ÉS como o rôsto das rosas: diferente em cada pétala. Onde estava o teu perfume? Ninguém soube. Teu lábio sorriu para todos os ventos e o mundo inteiro ficou feliz. Eu, só eu, encontrei a gota de or...
TEU NOME é quási indiferente e nem teu rôsto já me inquieta. A arte de amar é exatamente a de ser poeta. Para pensar em ti, me basta o próprio amor que por ti sinto: és a idea, serena e casta, nutrida...
ÉS PRECÁRIA e veloz, Felicidade. Custas a vir, e, quando vens, não te demoras. Fôste tu que ensinaste aos homens que havia tempo, e, para te medir, se inventaram as horas. Felicidade, és coisa estranh...
DEUSA dos olhos volúveis pousada na mão das ondas: em teu colo de penumbras, abri meus olhos atónitos. Surgi do meio dos túmulos, para aprender o meu nome. Mamei teus peitos de pedra constelados de pr...
AS ORDENS da madrugada romperam por sôbre os montes: nosso caminho se alarga sem campos verdes nem fontes. Apenas o sol redondo e alguma esmola de vento quebram as formas do sono com a idea do movimen...
DEIXEI meus olhos sòzinhos nos degraus da sua porta. Minha bôca anda cantando, mas todo o mundo está vendo que a minha vida está morta. Seu rosto nasceu das ondas e em sua bôca há uma estrêla. Minha m...
ALMA divina, por onde me andas? Noite sòzinha, lágrimas, tantas! Que sôpro imenso, alma divina, em esquecimento desmancha a vida! Deixa-me ainda pensar que voltas, alma divina, coisa remota! Tudo era...
HÁ UMA água clara que cai sôbre pedras escuras e que, só pelo som, deixa ver como é fria. Há uma noite por onde passam grandes estrêlas puras. Há um pensamento esperando que se forme uma alegria. Há u...
A MENINA de preto ficou morando atrás do tempo, sentada no banco, debaixo da árvore, recebendo todo o céu nos grandes olhos admirados. Alguém passou de manso, com grandes nuvens no vestido, e parou di...
A TAÇA foi brilhante e rara, mas o vinho de que bebí com os meus olhos postos em ti, era de total amargura. Desde essa hora antiga e preclara, insensìvelmente descí, e em meu pensamento sentí o desgôs...
CIDADEZINHA perdida no inverno denso de bruma, que é dos teus morros de sombra, do teu mar de branda espuma, das tuas árvores frias subindo das ruas mortas? Que é das palmas que bateram na noite das t...
CHOVEU tanto sôbre o teu peito que as flores não podem estar vivas e os passos perderam a fôrça de buscar estradas antigas. Em muita noite houve esperanças abrindo as asas sôbre as ondas. Mas o vento...
MEU SANGUE corre como um rio num grande galope, num ritmo bravio, para onde acena a tua mão. Pelas suas ondas revôltas, seguem desesperadamente todas as minhas estrêlas soltas, com a máxima cintilação...
TUA passagem se fez por distâncias antigas. O silêncio dos desertos pesava-lhe nas asas e, juntamente com êle, o volume das montanhas e do mar. Tua velocidade desloca mundos e almas. Por isso, quando...
A MINHA vida se resume, desconhecida e transitória, em contornar teu pensamento, sem levar dessa trajectória nem êsse prêmio de perfume que as flôres concedem ao vento.
TRAZE-ME um pouco das sombras serenas que as nuvens transportam por cima do dia! Um pouco de sombra, apenas, — vê que nem te peço alegria. Traze-me um pouco da alvura dos luares que a noite sustenta n...
CAMPO da minha saüdade: vai crescendo, vai subindo, de tanto jazer sem nada. Desvêlo mudo e contínuo que vai revestido os montes e estendendo outros caminhos. Mergulhada em suas frondes, a tristeza é...
A VENTANIA misteriosa passou na árvore côr de rosa e sacudiu-a como um véu, um largo véu, na sua mão. Foram-se os pássaros para o céu. Mas as flôres ficaram no chão.
NESTAS pedras caíu, certa noite, uma lágrima. O vento que a secou deve estar voando noutros países, o luar que a estremeceu tem olhos brancos de cegueira, — esteve sôbre ela, mas não viu seu esplendor...
O VENTO voa, a noite tôda se atordoa, a fôlha cai. Haverá mesmo algum pensamento sôbre essa noite? sôbre êsse vento? sôbre essa fôlha que se vai?
VAIS FICANDO longe de mim como o sono, nas alvoradas; mas há estrêlas sobressaltadas resplandecendo além do fim. Bebo essas luzes sem tristeza, porque sinto bem que elas são o último vinho e o último...
FEZ TANTO luar que eu pensei nos teus olhos antigos e nas tuas antigas palavras. O vento trouxe de longe tantos lugares em que estivemos que tormei a viver contigo enquanto o vento passava. Houve uma...
ESTES MEUS tristes pensamentos vieram de estrêlas desfolhadas pela bôca brusca dos ventos? Nasceram das encruzilhadas, onde os espíritos defuntos põem no presente horas passadas? Originaram-se de assu...
NÃO TINHA havido pássaro nem flores o ano inteiro. Nem guerras, nem aulas, nem missas, nem viagens e nem barca e nem marinheiro. Nem indústria ou comércio, nem jornal nem rádio, o ano inteiro! Nem car...
PASSARAM os reis coroados de ouro, e os heróis coroados de louro: passaram por êstes caminhos. Depois, vieram os santos e os bardos. Os santos, cobertos de espinhos. Os poetas, cingidos de cardos
NA CANÇÃO que vai ficando já não vai ficando nada: é menos do que o perfume de uma rosa desfolhada. /// Os remos batem nas águas: têm de ferir, para andar. As águas vão consentindo — êsse é o destino...
TOCA essa música de sêda, frouxa e trêmula, que apenas embala a noite e balança as estrêlas noutro mar. Do fundo da escuridão nascem vagos navios de ouro, com as mãos de esquecidos corpos quási desman...
FINO CORPO, que passeias na minha imaginação como o vento nas areias, serás o rei Salomão? Há um perfume de madeira e uma confusa noção de óleo e nardo, a noite inteira, na minha imaginação. Estendem-...
O TEMPO gerou meu sonho na mesma roda de alfareiro que modelou Sirius e a Estrêla Polar. A luz ainda não nasceu, e a forma ainda não está pronta: mas a sorte do enigma já se sente respirar. Não há nor...
ESTOU vendo aquele caminho cheiroso da madrugada: pelos muros, escorriam flores moles da orvalhada; na côr do céu, muito fina, via-se a noite acabada. Estou sentindo aqueles passos rente dos meus e do...
I A MENINA enfêrma tem no seu quarto formas inúmeras que inventam espantos para seus olhos sem ilusão. Bonecos que enchem as grandes horas de pesadelos, que lhe roubam os olhos, que lhe partem a garga...
EU CANTO porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gôzo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Si d...
O CHÔRO vem perto dos olhos para que a dôr transborde e caia. O chôro vem quasi chorando como a onda que toca na praia. Descem dos céus ordens augustas e o mar chama a onda para o centro. O chôro foge...
ÁGUA DENSA do sonho, quem navega? Contra as auroras, contra as baías: barca imóvel, estrêla cega. Bate o vento na vela e não a arqueia. — Não foi por mim! Partiram-se as cordas, rodaram os mastros, os...
EU NÃO tinha êste rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem êstes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem fôrça, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha ê...
HOJE é tarde para os desejos, e nem me interessa mais nada... Cheguei muito depois do tempo em que se pode ouvir dizer: «Oh! minha amada...» O mar imóvel dos teus olhos pode estar bem perto, e defront...
BEM SEI que, olhando p'ra minha cara, p'ra minha bôca, triste e incoerente, p'ros gestos vagos de sombra incerta que hoje sou eu, minha loucura se faz tão clara, minha desgraça tão evidente, minha alm...
PUS o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; — depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar. Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a côr que escorre d...
QUEM ME leva adormecida por dentro do campo fresco, quando as estrêlas e os grilos palpitam ao mesmo tempo? O céu dorme na montanha, o mar flutua em si mesmo, o tempo que vai passando filtra a sombra...
A ENGRENAGEM trincou pobre e pequeno inseto. E a hora certa bateu, grande e exata, em seguida. Mas o toque daquele alto e imenso relógio dependia daquela exígua e obscura vida? Ou percebeu siquer, enq...
PUNHAL de prata já eras, punhal de prata! Nem fôste tu que fizeste a minha mão insensata. Vi-te brilhar entre as pedras, punhal de prata! — no cabo, flores abertas, no gume, a medida exata, a exata, a...
BENTEVÍ que estás cantando nos ramos da madrugada, por muito que tenhas visto, juro que não viste nada. Não viste as ondas que vinham tão desmanchadas na areia, quási vida, quási morte, quási corpo de...
AI! A MANHÃ primorosa do pensamento... Minha vida é uma pobre rosa ao vento. Passam arroios de côres sôbre a paisagem. Mas tu eras a flor das flôres, Imagem! Vinde ver asas e ramos, na luz sonora! Nin...
A TUA RAÇA de aventura quis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscura em não querer, em não ganhar... A tua raça quer partir, guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir n...
EU VIM de infinitos caminhos, e os meus olho choveram lúcido pranto pelo chão. Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos, essa vida, que era tão viva, tão fecunda, porque vinha de um coração? E o...
BASTA-ME um pequeno gesto feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve... — mas só êsse eu não farei. Uma palavra caída das montanhas dos instantes desmancha todos os mare...