Artur Lobo
Do antigo bosque na mudez austera, longe das sanhas das paixões, da insana guerra e dos uivos da fereza humana, jaz solitária a fúnebre tapera. Perto um arroio sob os festões de hera desliza a medo, e...
Hélas! et l’on sentait de moment en moment, sous cette voute sombre, quelque chose de grand, de saint et de charmant, s’évanouir dans l’ombre Victor Hugo – Les chants du crépuscule. Numa atitude augus...
...Porém direis “É pérfido o sorriso que nesse lábio contrafeito esvoaça; há muito fel decerto nessa taça que afetas esgotar com alegre riso.” E, pois, julgais que a máscara improviso, por que a túnic...
Placidamente, ao declinar do dia, sobre a tristeza lírica dos prados a noite desce murmurante e fria, dos solitários montes escarpados. Tudo repousa. E na mudez sombria, na solidão dos ermos descampad...
Atra noite outonal. Como feroz lamento, através da folhagem, corta o silêncio a voz aspérrima do vento indômita e selvagem. Cresce o estranho furor da regida nortada, e todo o bosque umbroso agita-se...
(A Artur Azevedo) I Aqui, fugindo à estiva calma ardente, à sombra deste plátano te abrigas; aqui marulha a tímida corrente onde do sol molesto a luz mitigas. Já que rumina o teu rebanho, vamos cantar...
De noite a sombra silenciosa e estranha, como um abutre, pousa da montanha na tenebrosa cúspide escarpada. No céu sequer a pálpebra dourada de um astro vela. Pelo azul somente a lua escorre silenciosa...
Ita, o guerreiro, é velho e silencioso. Seu cavo olhar nostálgico e nuvioso se extingue à flor da mádida pupila; verga-se-lhe o tronco; aos poucos se aniquila o seu vigor antigo; inerte e lasso pende-...
(A Azevedo Júnior) Amplo, profundo, túrgido, sombrio – ora estreitando, ora apartando mais o leito – desce o caudaloso rio... desce por entre os trêmulos juncais. No calmo espelho cristalino e frio ab...
Naquele vaso fúnebre de argila é que o feroz guerreiro, audaz outrora, valente e altivo – encarquilhado agora, na paz da morte aos poucos se aniquila. Do extinto lume aceso na pupila foi-se-lhe a vida...
(A Figueiredo Pimentel) Ao sabor da corrente, em que se afoga da balsa a popa errática, descemos, enquanto o rio espuma e a quilha joga ao compasso monótono dos remos. Sobre a frágil e intrépida pirog...
Ainda que a dura e acerba dor sofrendo e muito embora o amargo fel provando, raro vereis o pranto meu correndo, raro vereis meu coração pulsando. Porque das desventuras me defendo, odes, versos e rima...
Ardem os círios alvos da capela e os sinos tangem dobres a finados. Por que não mais a luz do olhar estrela de Dona Branca os olhos assombrados? Jaz o castelo desolado e frio, ardem archotes na capela...
Noite tranquila e silenciosa. Esplende, ao longe, a luz da próxima alvorada. Da via-láctea sobre o céu resplende a chamejante túnica estrelada. A terra os sonhos mórbidos tressua e as seivas fortes pe...
I Ei-la que vem surgindo, a passo e a medo, dentre os claros da víride espessura. Em derredor murmura-lhe o arvoredo, e todo o bosque em derredor murmura. Há risos n’água, e vozes no silvedo. Há frêmi...
Chapelim Vermelho, cabazinho cheio, aonde vás agora, sem nenhum receio, quase noite, aos montes, indefesa e só? – Vou levar toucados cor dos alvos linhos, vou levar regalos, vou levar carinhos, vou le...
Ó tu que vás ao declinar do dia pela deserta e solitária estrada, a noite desce próspera e esfuzia na brenha a voz da frígida nortada! Junto à escarpada cúspide sombria do árido monte, ao pé da encruz...
Dona Inês vem a desoras ao parque do seu solar. Tão pálida! Por que choras, princesa do Montealvar? Estrela, por que descoras, Por que palpitas, luar? Canta o amor, e a cotovia sente-se errante pelo a...
(Ao Dr. Augusto de Lima) E pelo velho cemitério errando via-se um monge assim monologando: Sim... É aqui a tumba em que repousa o seu formoso corpo de donzela. Sob esta fria e consternada lousa, eis a...
(A L. Cassiano Junior) Fugiu-me a doidejante e alegre fantasia! Embalde exerço a pena e ao tédio meu resisto! Foi-se-me a inspiração, decerto... E todavia neste aturado afã de produzir insisto! Sai-me...
Erro, buscando, cego embora, a branca luz da madrugada. A noite eu sou; tu és a aurora, amada. Sonhos da noite estrelada, sonhos de amor; canções da cor da alvorada, canções de amor! Ai, que tristeza,...
Dona Donzilha vem da capela, tão abatida, tão singular. Que desventura, que dor aquela, tão digna e nobre no seu pesar! Toda de negro; trajando luto, ela rosava no seu altar. Círio impassível, sou ros...
E foi depois de tanto mal passado, sem que ainda o amargo fel provado houvesse, que sei que o gozo tanto mais buscado, tanto mais caro – mais nos apetece. Argonautas, que vão-se ao celebrado Cipango o...
I Doce pastor, o teu pesar modera, para que possas antes deleitar-me. Pela dos ventos vesperais tempera sonora a voz do teu sonoro carme. Pois se a que adoras é ingrata e astuta e insensível a todos o...
Dócil, moroso, válido, nutrido, à dúbia luz da fresca madrugada, ei-lo que vai passando pela estrada, grave e solene, entre os cauzis jungido. Ouve-se em cima o trêfego alarido da melodiosa e alegre p...
I Em um país fantástico das lendas, em que de gaze as névoas precintadas têm assentado as vaporosas tendas ao pé das claras linfas argentadas, rico castelo feérico domina um atro bosque circunfuso e i...
Para engastar na estranha contextura, Eximia e bela, de uma estrofe rara, Pedi ao mar a mais pura E ao céu a estrela mais formosa e clara. Gotas que o orvalho esparze na espessura, Prismas que, a cor...
Próxima à velha mata abandonada e triste ao pé da encruzilhada, uma antiga ruína aos temporais resiste, mesta e desabitada. As verdes explosões dos líquens e das heras, alastrando as paredes, embalam...
Ei-la dormindo. Sobre um braço erguida; reclina a fronte; o seio se avoluma sobre o colo de mármore. Nenhuma voz atravessa a alcova adormecida. Fora, por sobre a noite comovida, entre a alvejante cerr...