Alphonsus de Guimaraens
Aberta a pobre mão como a pedir a morte, Olhos que vinham de mais longe que os poentes, Ela surgiu-me branca e pura de tal sorte Que vi passar por mim sombras inexistentes. Gemei, gemei ao luar, vento...
Ontem, à meia-noite, estando junto A uma igreja, lembrei-me de ter visto Um velho que levava às costas isto: Um caixão de defunto. O caso nada tem de extraordinário. Que um velho a levar um caixão tal...
(Ao Dr. Edmundo Luís) Na mesa, quando em meio à noite lenta Escrevo antes que o sono me adormeça, Tenho o negro tinteiro que a cabeça De um corvo representa. A contemplá-lo mudamente fico E numa dor a...
Se a tentação chegar, há de achar-me rezando Na erma Tebaida do meu sonho solitário. (Miséria humana, humano vício miserando, Não haveis de poluir as hóstias no Sacrário..). Se a tempestade vier, há d...
Santa Maria, Mãe de Jesus, Que com as asas protetoras cobres Os que têm frio, rotos e nus, Ora-pro-nóbis. Santo José, pobre carpinteiro, Que eras tão pobre entre os que eram pobres, De enxó na mão, Sa...
Às vezes, alta noite, ergo em meio da cama O meu vulto de espectro, a alma em sangue, os cabelos Hirtos, o torvo olhar como raso de lama, Sob o tropel de um batalhão de pesadelos Pelo meu corpo todo u...
“Um esqueleto de mantilha Que passa pela minha porta... (Um velho diz) é minha filha Que vai morrer ou que está morta!” “Um esqueleto agonizante Que passa pela minha porta... (Um moço diz) é minha ama...
I Vestido de ouro o Sol, bom padre, canta a missa Da luz no altar do céu. Véus de celestes damas, As nuvens voam: cantam pássaros: e viça Mais do que nunca o olhar de Flora pelas ramas. Entra o Espect...
Com a vasta escuridão do teu cabelo ensombras, Se o destranças pelo ar, o próprio sol que bate Nessa carne que tem a maciez das alfombras Feitas de seda branca e veludo escarlate. Não sei quem és e ao...
I Ascetas imortais da Idade Média, os joelhos Sangraram-vos de tanto orar: o olhar contrito, Seguindo o olhar de Deus nos ocasos vermelhos, Fugiu-vos para o céu, sedento de infinito. As nuvens para vó...
(Ao meu primo Horácio Bernardo Guimarães) Tanta agonia, dores sem causa, E o olhar num céu invisível posto... Prantos que tombam sem uma pausa. Risos que não chegam mais ao rosto... Noites passadas de...
(A Álvaro Viana) Fica bem longe o meu principado, Entre montanhas que não têm verdura. (Meu dolorido coração, cuidado! Há muito tempo o temporal perdura). Vivo no meu castelo avassalado A uma rainha s...
(A Augusto de Viana do Castelo) Cheguei à meia-noite em ponto. O caso deu-se como eu conto, Cheio de lúgubre mistério... Pois ela disse: “Ao cemitério Vamos à meia-noite em ponto.” E eu respondi-lhe:...
(Impressões de véspera de finados) Perdido como estou nesta grande charneca, Cheio de sede, cheio de fome, Disse-se Deus: “Sê bom!” E o Diabo diz-me: “Peca!” E os anjos e demônios repetem o meu nome....
(A Coelho Neto) Um espírito mau passa rezando ofícios Na minha alma que está toda cercada de eças. E patriarcas senis vêm mostrar-me cilícios, Falam no Purgatório, e vão fugindo às pressas. Feiticeira...
(Sequência do Dia dos Finados) Oh! Dia de ira, aquele dia! Di-lo Davi, e a Pitonisa: Revolve o mundo em cinza fria. Mas que pavor haverá quando Vier Aquele que pesquisa As obras do homem miserando! Pe...
(A Joaquim Soares Maciel Júnior) Uma visão do tenebroso Limbo. Soturna e sepulcral, tens a teu lado: Por um artista foi este cachimbo À feição de caveira burilado. Vê tu, formosa, é um crânio em minia...
(A Augusto Inácio de Araújo Lima) No campanário, ao sol incerto, Não há sineiros nem há sinos Se alguém morrer aqui por perto, Não terá dobres vespertinos, Lamento de almas no deserto. Já não lia sino...
Sonhei que estava no eremitério, Rezando sempre rezas de cor, E como o luar clareasse o chão do cemitério, Pensei num mundo que é talvez melhor. Branca de linho como um fantasma, A torre grande era só...
Certo, eu vivo num mundo espiritual, postado À beira de uma vil sepultura de gesso. Sem que possa fugir, vejo a morte ao meu lado... Que vale o pó (... foste mulher!) por que padeço? Pobres restos mor...
Bem me valeu rezar e ser humilde e justo, E erguer ao céu piedoso os olhos compassivos: O dragão que eu temia apareceu-me, o busto, Fulvo, no resplendor dos clarões redivivos... Tombei de joelhos, sem...
Não sei que vento mau turvou de todo o lago. Como a capa de luz da Senhora, das Dores, Ele era azul e tinha estrelas... e o tom vago Dos olhos cheios de celestes resplendores. Ele era todo azul como o...
E temo, e temo tudo, e nem sei o que temo. Perde-se o meu olhar pelas trevas sem fim. Medonha é a escuridão do céu, de extremo a extremo... De que noite sem luar, mísero e triste, vim? Amedronta-me a...
(A José Severiano de Rezende) São Bom Jesus de Matozinhos Fez a Capela em que o adoramos No meio de árvores e ramos Para ficar perto dos ninhos. É como a Igreja de uma aldeia, Tão sossegada e tão sing...
Uma mulher que por amar soluça, Na torre da minha alma se debruça. E despenha-se o luar na encosta do monte, Tranquilamente, como uma fonte. Dois ou três demônios familiares Passam cantando, para voar...
Tantas serpentes vi pelos meus calcanhares Em rolos, e tal era a fúria dos seus botes, E tantas rãs coaxando, e as vozes familiares De outros muitos répteis a pular aos pinotes: Tantos monstros, que e...
E a furna absconsa ao pé de um tremedal tremendo. Soluçam gênios maus numa região de peste. Sem ar, sujeito ao som no insólito, distendo Os nervos doentes. Passa arfante o vento leste. Ah! se eu fosse...
Sete Damas por mim passaram. E todas sete me beijaram. E quer eu queira quer não queira. Elas vêm cada sexta-feira. Sei que plantaram sete ciprestes. Nas remotas solidões agrestes. Deixaram-me como um...
(Lenda do báltico, transplantada para Portugal) Ignota lenda astral da Bem-Aventurança, Já não há sobre a terra o que eu chamo esperança. José Severiano de Rezende De mon espoir je suis la tombe... Es...
Meus pobres sonhos que sonhei, já tão sonhados, Que vento de desdita e de luto vos leva? Que fúria sem pavor, sedenta de pecados, Vos guia em turbilhões de poeira e de treva? E quem vos faz errar sem...
...Une pourpre s'apprete A ne tendre royal que mou absent tombeau. S. Mallarmé I Desesperanças! réquiem tumultuário Na abandonada igreja sem altares... A noite é branca, o esquife é solitário, E a cov...
Eu cantei como vós, oh trovadores, E ninguém quis ouvir os meus amores. Cantei meus versos junto às morenas, Riram-se todas das minhas penas. E junto às loiras, dias inteiros, Cantei meus sonhos avent...