Adélia Prado

Velhice é um modo de sentir frio que me assalta e uma certa acidez. O modo de um cachorro enrodilhar-se quando a casa se apaga e as pessoas se deitam. Divido o dia em três partes: a primeira pra olhar...
Os velhos cospem sem nenhuma destreza e os velocípedes atrapalham o trânsito no passeio. O poeta obscuro aguarda a crítica e lê seus versos, as três vezes por dia, feito um monge com seu livro de hora...
Veio o câncer no fígado, veio o homem pulando da cama no chão e andando de gatinhas, gritando: ‘me deixa, gente, me deixa’, tanta era sua dor sem remédio. Veio a morte e nesta hora H, a camisa sem bot...
O que pude oferecer sem mácula foi meu choro por beleza ou cansaço, um dente exraizado, o preconceito favorável a todas as formas do barroco na música e o Rio de Janeiro que visitei uma vez e me deixo...
Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem preci...
O ovo não cabe em si, túrgido de promessa, A natureza morta palpitante. Branco tão frágil guarda um sol ocluso O que vai viver, espera.
Enquanto punha o vestido azul com margaridas amarelas e esticava o cabelos para trás, a mulher falou alto: é isto, eu tenho inveja de Carlos Drummond de Andrade apesar de nossas extraordinárias semelh...
Encontrei meu marido às três horas da tarde com uma loura oxidada. Tomavam um guaraná e riam, os desavergonhados. Ataquei-os por trás com mão e palavras que nunca suspeitei conhecer. Voaram três dente...
Quando minha irmã morreu eu chorei muito e me consolei depressa. Tinha um vestido novo e moitas no quintal onde eu ia existir. Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento. Tinha uma perturbação re...
Eu quero uma licença de dormir, perdão pra descansar horas a fio, sem ao menos sonhar a leve palha de um pequeno sonho. Quero o que antes da vida foi o profundo sono das espécies, a graça de um estado...
Viola violeta violenta violada, óbvia vertigem caos tão claro, claustro. Lápides quentes sobre restos podres, um resto de café na xícara e mosca.
Te espero desde o acre-mel de marimbondos da minha juventude. Desde quando falei, vou ser cruzado, acompanhar bandeiras, ser Maria Bonita no bando de Lampião, Anita ou Joana, desde as brutalidades da...
Depois de morrer, ressuscitou e me apareceu em sonhos muitas vezes. A mesma cara sem sombras, os graves da fala em cantos, as palavras sem pressa, inalterada, a qualidade do sangue, inflamável como o...
Entre paciência e fama quero as duas, pra envelhecer vergada de motivos. Imito o andar das velhas de cadeiras duras e se me surpreendem, explico cheia de verdade: tô ensaiando. Ninguém acredita e eu g...
A Revista de Santo Antônio tem uma seção que eu não perco: À Sombra da Cruz onde se recomenda à oração dos leitores as almas dos assinantes. Venício Ferreira Bernardes — Carmópolis de Minas Mozar Pere...
Eu quero amor feinho. Amor feinho não olha um pro outro. Uma vez encontrado é igual fé, não teologa mais. Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo e filhos tem os quantos haja. Tudo que nã...
O reconheci na fração do meu nome, me chamou como em vida, a partir da tônica: ‘Délia, vem cá’. Peguei nos pés do catre, onde jazia sã sua cara doente, e o fui arrastando por corredores cheios de médi...
As coisas tristíssimas, o rolomag, o teste de Cooper, a mole carne tremente entre as coxas, vão desaparecer quando soar a trombeta. Levantaremos como deuses, com a beleza das coisas que nunca pecaram,...
As três irmãs conversavam em binário lentíssimo. A mais nova disse: tenho um abafamento aqui, e pôs a mão no peito. A do meio disse: sei fazer umas rosquinhas. A mais velha disse: faço quarenta anos,...
Os moços tão bonitos me doem, impertinentes como limões novos. Eu pareço uma atriz em decadência, mas, como sei disso, o que sou é uma mulher com um radar poderoso. Por isso, quando eles não me vêem c...
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