I

Em um país fantástico das lendas,
em que de gaze as névoas precintadas
têm assentado as vaporosas tendas
ao pé das claras linfas argentadas,

rico castelo feérico domina
um atro bosque circunfuso e implexo,
que o plenilúnio mágico ilumina,
deixando na água o seu clarão reflexo.

De mármore e de pórfiro esplendentes,
e de volutas jônicas ornado,
ele apresenta os pórticos luzentes,
de inexpugnáveis fossos abraçado.

E quando colma seus torreões agudos
do almo luar a merencória chama,
sobre os desertos arredores mudos
das lívidas janelas se derrama,

pelas ogivas e pelas seteiras
a luz que vai com um rumor de festa
se projetar na areia das clareiras
e repelir as sombras da floresta.

II

Jamais o arrojo ousado penetrara
estes recessos de sinistros pactos,
onde o castelo ostenta a forma rara
e a opulência real dos artefatos.

Ninguém! ninguém! Apenas se dizia
que formas vagas, móveis divagando
por noite mansa, murmurante e fria,
viram-se as fundas valas penetrando.

Talvez, quem sabe? loucos que vagavam
por veredas estranhas e secretas,
ou fogos fátuos que se derramavam...
sombras, talvez, ou almas de poetas?

Ninguém dizer, porém, soubera ao certo,
por mais que o olhar as trevas devassasse,
que segredo inefável o deserto
palácio no seu âmbito ocultasse. 

III

Transpondo, entanto, o fosso legendário,
e entrando o mago bosque sonolento,
ouviríeis, de chofre, em ritmo vário
e em vário tema, um trêmulo concento.

Cantos se esfolham... Crótalos ressoam,
desenrolando os músicos novelos,
por cuja tela delicada voam
as asas musicais dos ritornelos.

De imagens veste as túnicas a Ideia.
Abrem as folhas as estrofes de ouro;
e, como hetairas gregas em coreia,
cantam Rimas uníssonas em coro.

Harpas e goelas, bandolins e avenas
ao vento jorram gratos sons dispersos:
nas doces notas débeis e serenas
rebenta a grave música dos Versos.

Nas cotas de armas dos alexandrinos
o rubro canto bélico ressoa,
sobrepujando os trilos argentinos
na larga tuba que mais rija troa.

De grave forma esplêndida, a Poesia,
deste concerto divinal, perene
dominando a soberba sinfonia,
a alma suspende, extática e solene.

E fora sob a noite constelada,
brisas soluçam, lânguidas e eólias,
enchendo a vaga imensa e embalsamada
da flor do jasmineiro e das magnólias.

Tal de um poeta o espírito errabundo
vira por noite límpida e harmoniosa,
enquanto o céu sorria-lhe do fundo
da florescência de ouro luminosa.