(Ao Dr. Augusto de Lima)

E pelo velho cemitério errando
via-se um monge assim monologando:

Sim... É aqui a tumba em que repousa 
o seu formoso corpo de donzela.
Sob esta fria e consternada lousa,
eis a morada derradeira dela...
Porém, meu pobre coração, detém-te!
Eis-te de novo sufocado em pranto.
Sob um burel de monge indiferente
nenhuma dor jamais pungiu-me tanto!
Na minha cela estreita sepultado,
à luz sinistra e pálida de um círio,
em vão tenho sofrido e em vão tentado
o suicídio lento do martírio:
esta lembrança eterna me acompanha,
como uma sombra, a sombra de meus passos,
e embalde busco essa visão estranha
nesta ansiedade extrema de meus braços!

Como era meiga aquela que eu amava
e que ora dorme nesta sepultura!
Era-lhe a voz, quando ela me falava
mais do que as aves maviosa e pura.
Tinha na trama densa dos cabelos
um régio manto refulgente e louro
que lhe tombava em trêmulos novelos
numa formosa catadupa de ouro.

Como as Madonas louras, ela tinha
no seu semblante angélico e magoado
a graça senhoril de uma rainha
e o casto olhar das noivas sem pecado:
não sei que luz divina a iluminasse,
para que mais celeste parecesse
com a rubra flor que lhe incendia a face
e que na puberdade refloresce.

Cheia de graça e cheia de meiguice,
era sensível, amorosa e doce;
nem sei que tela alguma possuísse
forma ideal que tão etérea fosse.

Eu adorava-a; e muita vez beijando
a sua mão patrícia e delicada,
via-a sorrindo e súbito chorando,
a branca face em lágrimas banhada.

– “Por que é que choras – lhe dizia – louca?
E redobrava de carícia e afago,
e lhe dizia o que me vinha à boca,
mas presa de um pressentimento vago.
Esta cruel catástrofe terrível,
meu pobre coração, tu pressentias
num doloroso pranto inexprimível
de repentinas lágrimas sombrias.

Morta! Morta! Parece vê-la ainda
como uma triste sombra merencória,
tendo no rosto uma tristeza infinda,
tendo no corpo a rigidez marmórea.
Não sobrevive o pobre coração
a este medonho e horrível cataclismo,
e bruxoleia o facho da razão
na noite intensa do atro Ceticismo.

Do berço arrebatada à catacumba,
precipitadamente a vida humana
tomba da boca hiante de uma tumba
no pesadelo eterno do Nirvana.
Pela nossa alma adormecida, à noite,
os sonhos passam como nebulosas;
o teu sono final, porém, deixou-te
somente, oh tumba, as noites tenebrosas!

Foram decerto esses teus restos pulcros,
e agora eu tremo e me apavoro ao vê-los:
A digestão do Ventre dos sepulcros 
faz-se de sombras e de pesadelos...
Dolorosa irrisão: o nada – eis tudo!
E desta que adorei linda mulher
não deixa o abismo solitário e mudo
nem um vestígio ou pegada sequer!

Na subterrânea química funérea
foge nossa alma volatilizada
abandonando os restos da matéria
às solidões intérminas do Nada...
Alma?! Mentira! É falso o gozo eterno.
O coração humano embalde pede-o.
A razão nos repele esse superno
de uma outra vida inexorável tédio!

E muita vez eu tenho em vão tentado
beber a luz nos cálices da fé
que no sabor e travo envenenado
como esses vinhos capitosos é;
apenas ela, em nós avigorando,
nos estiola a flor dos corações;
e faz da crença um bálsamo execrando,
e mais atrozes as desilusões.

Mente a razão, e mentem-me os sentidos?
Obcecação fatal a que resisto
nos meus esforços vãos sempre iludidos!
– Mas porventura vivo ou acaso existo?
Se sou ou se não sou, enfim, que importa?
Sinto-me quase em átomos disperso.
Já nem existo: a minha noiva é morta:
– acabou-se o Universo!

(O eremita continua a falar mentalmente. As trevas da noite se acentuam. Ouvem-se doze pancadas em uma igreja próxima)

Meia noite! É deserto o eremitório... 
Tenho febre, e me sinto enrejelado...
O céu caliginoso é um mortuório
de palpitantes círios constelado:

Este lugar tão ermo e solitário
mete-me na alma um doce refrigério.
Este silêncio! é pois extraordinário
Onde estou? Nem no sei... O cemitério!

(O vento esfuzia nos chorões; um relâmpago risca o espaço; começa o delírio clássico)

Horrendamente a minha voz retumba.
Oh! que pavor! O vento ulula: neva...
Lança um fulgor sinistro aquela tumba.
Como que alguém tateia pela treva...

Projeta-se um clarão fosforescente
sobre um montão de tábidos destroços,
e se desvenda à luz promiscuamente
a nudez esquelética dos ossos!

Eis-me a tremer. Mas não é frio: é medo.
O coração mais célere palpita...
Ronca o vento através deste arvoredo
numa funérea cólera infinita!

Estes ciprestes! Como são sombrios
estes ciprestes! Julga-se na baça
espessura de vultos tão esguios
um gesto hostil de tácita ameaça.

A funda paz tetérrima das lousas
tem um mesto e febril recolhimento
com que conspiram as estranhas coisas
que andam carpindo pela voz do vento.

Sob os ferais sarcófagos medonhos
tudo sepulto tristemente jaz
nesse silêncio dos primeiros sonhos
das decomposições e seivas más;

O sangue forte das germinações
lateja nas artérias das alfombras,
assimilando as negras podridões
onde os répteis deslizam pelas sombras,

como febris tentáculos da morte
– polvo das vidas ávido... Porém,
ouço talvez com um rumor mais forte...
A tais desoras, quem seria? Quem?!

Somente a voz do vento atroa o espaço.
Do céu feroz na horrenda catadura,
da mal desperta estrela o brilho escasso,
frouxo, desmaia na infinita altura.

Estou a delirar! Enganar-me-ia?
Oh! não! Vejo-os agora, e agora ao vê-los,
sinto que a minha carne se arrepia
e que se me arrepiam os cabelos!

Mas esta agitação
é talvez a loucura.
Fatal obcecação!
No crânio tenho a noite, e a mente, escura.

Eu raciocino? eu sonho? eu sinto? eu penso?
Não sei. Debalde insisto:
Cerca-me um atro nevoeiro denso
ao redor de tudo isto.

Os olhos abro, e mais e mais dilato-os.
Não me iludia; vejo-os 
entre clarões e lívidos lampejos
dos móveis fogos fátuos!

Abrem-se as covas com fragor medonho!
As larvas vaporosas
agitam-se nas tumbas tenebrosas,
como as visões fantásticas de um sonho;

levanta-se de chofre,
e agitam-se em tropel,
deixando pelas campas um cruel
clarão letal de pestilento enxofre

Sob os sudários lúgubres destroços
trazem das atras trevas,
como as múmias primevas
dentro da pele chocalhando os ossos!

As órbitas vazias
dos crânios hirtos, lívidos e nus
circunvagam sem luz,
extintas e sombrias.

***

Multiplicando os desmedidos passos
sonoros para a frente,
estendem-me a sorrir os longos braços
ameaçadoramente!

E dançam em coreia, por seu turno,
um sabbat infernal
num grave ritmo anômalo e soturno,
fúnebre e maquinal!

Este, que avança, irônico duende,
que os bruscos gestos trunca, 
por que os braços me estende,
por que me estende a fina mão adunca?

Ela! Que vejo? A minha bem amada,
minha esperança, meu desejo, minha
noiva querida, pálida e magoada,
feito uma larva... Asinha!

Ris-te negro avantesma!
O teu riso satânico apavora!
Certo não és a mesma
que eu adorei outrora!

Oh! vai-te! Eu te detesto!
e de nojo me afasto!
O teu olhar é lúgubre e funesto,

esse teu riso é fúnebre e nefasto!

Porém, por que me tocas
esse teu seio lúbrico e nojento?
Maldição, maldição! tu me sufocas
neste atroz e fatal estreitamento!

Se ainda me restasse algum socorro...
Não me arrastes à tua sepultura!
Mas esta escuridão imensa. Eu morro...
Não é a febre porém: – é a Loucura!...”

***

Ao despontar do dia
sobre a tumba jazia
do eremitório o monge solitário.
Tinha no olhar um brilho extraordinário e a fixidez idiota
que dos loucos se nota
no desvairado esgar:
espalmava-lhe o rosto um riso alvar
de um inconsciente:
Estava louco – louco inteiramente