De noite a sombra silenciosa e estranha,
como um abutre, pousa da montanha
na tenebrosa cúspide escarpada.
No céu sequer a pálpebra dourada
de um astro vela. Pelo azul somente
a lua escorre silenciosamente
a sua vaga e morna claridade.
Do estranho sítio a mesta soledade
mais se avoluma à triste luz sombria
da lua em funeral. Uma agonia
vasta e silente em roda. Ao longe bronca,
na escarpa, a voz da ventania ronca,
e o cavo mar ressona vigoroso
numa ereção torácica de gozo.
E pela noite adiante quando a treva
mais se condensa, súbito se eleva
sobre a montanha uma esplendente flama.
O formidável píncaro se inflama,
arde abrasado e lume reverbera.
Da chama o largo vômito prospera
pelo arredor trevoso, despertando
das brutas feras o tranquilo bando.
Arde a cratera acesa, e o vasto lume
abrasa o vale o alcantilado cume
e da montanha a gigantesca sombra,
imensa e vasta, avança pela alfombra.
E, enquanto dorme em torno da fogue
a errante tribo nômade e guerreira,
rugem as feras nas esconsas furnas,
apostrofando às virações noturnas.