Ita, o guerreiro, é velho e silencioso.
Seu cavo olhar nostálgico e nuvioso
se extingue à flor da mádida pupila;
verga-se-lhe o tronco; aos poucos se aniquila
o seu vigor antigo; inerte e lasso
pende-lhe exangue o musculoso braço
que agora a frecha alígera atormenta.
Na brônzea face cava e macilenta
os longos anos rápidos traçaram 
sulcos que as dores mais aprofundaram.
Da basta cabeleira a neve espessa
lhe envolve o peito, cinge-lhe a cabeça,
e até a ilharga e aos vigorosos flancos
tombam anéis de seus cabelos brancos.
Ante os seus olhos da passada glória,
como clarão, iluminou-se a história.
Como era bela! Ao despontar do dia,
que estranha luz, que música alegria
iluminava o claro céu profundo!
Que canto enchia harmônico e jucundo
do firmamento a côncava redoma!
Que linda cor, que penetrante aroma
andavam céu e bosque eterizando!
Que estranhos sons de pássaros o bando
clarinizava na soturna brenha,
onde da inúbia a bronca voz roufenha
chamava as tribos aos afãs da guerra!
Uivava a grita; estremecia a terra;
setas fugiam pelo espaço afora;
e a sua maça rápida e sonora
ia lançando a morte, o horror, o espanto
sobre o inimigo apavorado, enquanto
rouco o clamor do maracá tremendo
ia mais vasto e rábido crescendo!
Mas, ó visões dos dias já passados,
por que acendeis-me os olhos apagados
a ler da vida os pérfidos arcanos?
Por que trazeis-me dos primeiros anos
a carinhosa e desbotada imagem?
Por que mostrais-me a pérfida miragem
que um frágil sopro apenas desvanece?
Nesta alma êxul e fria não floresce
mais a roseira da ilusão fugace.
Tudo se obumbra, apaga-se, desfaz-se
junto ao silêncio da decrepitude. 
Cala-te, pois, ó voz da juventude!

A noite clara estende-se infinita
no calmo céu. As tribos dormem. Ita,
o ancião, ascende aos flancos da montanha.
Há nos seus olhos uma luz estranha.
A passo tardo e trôpego caminha.
Em derredor das nuvens se avizinha
o pico excelso. Ao longe, sobre um monte
a aurora rasga as linhas do horizonte.
Ressoa já um arrulhante harpejo,
como o rumor dulcíssimo de um beijo.
O céu se aclara num rubor suave,
tingindo um bosque e despertando uma ave;
e a luz do dia sobre o azul suspensa
golfa, afinal, numa explosão imensa.
Sentindo, entanto, avizinhar-se a morte,
ele, o guerreiro, o valoroso, o forte,
a quem jamais os golpes abateram,
e que os anos impávidos venceram
– Ita, voltado para a luz do Oriente,
morre serena e majestosamente,
como um condor de luz extasiado,
no pedestal da cúspide pousado.