I
Doce pastor, o teu pesar modera,
para que possas antes deleitar-me.
Pela dos ventos vesperais tempera
sonora a voz do teu sonoro carme.

Pois se a que adoras é ingrata e astuta
e insensível a todos os pesares,
por que te queixes, nem sequer te escuta,
 não te escutando por que te queixares?

II
Aonde vos levam os fatais enganos 
da juventude, ó louca mocidade.
Tanto mais doem n’alma os desenganos,
mais nos apraz curtir esta saudade!

Como a efusão da lágrima a tortura
à dor desfaz, que punge e que escrucia,
assim falar da própria desventura
mais nos consola, mais nos alivia.

Se acaso um Fado ou fementido Nume
de uma paixão ferir-me tão funesta,
não logrará tirar-me um só queixume
desses que o tom do teu pesar te empresta.

Já que abandona a desdenhosa Lídia
o teu amor solícito à facécia,
que nos festins o teu desprezo olvide-a,
noutra aventura mais feliz esquece-a.

II
Ingênuo e fátuo! Como hei de esquecê-la
 e aos seus encantos e tesouros raros
– dia mais bela do que as Graças – ela
uma epopeia olímpica de Paros?

Ela que tem a forma junoniana
da bela deusa altiva e enamorada,
e que tão bela quanto desumana
dir-se-ia ser no mármore talhada!

Quando te exaltas em querê-la,
e quanta magia empregas para assim pintá-la!
A tua voz apaixonada encanta,
encanta o ouvido o som da tua fala.

Recebe, pois, em honra do teu canto
sonoro e terno esta dourada taça
e cíprio mosto cheia. Esgota-a, enquanto
o sol declina e a calma estiva passa.