Noite tranquila e silenciosa. Esplende,
ao longe, a luz da próxima alvorada.
Da via-láctea sobre o céu resplende
a chamejante túnica estrelada.
A terra os sonhos mórbidos tressua
e as seivas fortes pelo campo flóreo.
Dançam estrelas pelo espaço. A lua
deslumbra os lagos num clarão marmóreo.
Envolta em véus e gazes, a neblina
touca as nevoentas grimpas da montanha.
Jaz silencioso o cavo mar. Domina
terra inteira uma harmonia estranha.
Nem o rumor mais leve! O bosque
dorme sob a perene irradiação noturna;
há nas florestas um silêncio enorme,
o vento cala a rude voz soturna:
só virentes árvores frondosas
avançam sobre as túmidas alfombras,
nas clareiras da selvas nemorosas,
a projeção fantástica das sombras.
E sob o calmo e largo firmamento,
das estrelas aos místicos fulgores,
paira o Silêncio, asas abrindo ao vento,
no sono excelso e vago dos condores.
Torvo, plúmbeo, glacial, em tudo impera.
Embora! a voz eterna, pois, se exala;
e do silêncio na mudez austera
eterna a voz da natureza fala!
À luz radial dos astros impassíveis
flutuam pela solidão etérea
as formidandas vozes indizíveis
que povoam o sono da matéria,
como um clamor de trépidos afagos,
de crebros beijos e de etéreos ninhos...
Treme o cristal puríssimo dos lagos.
Riem flores à beira dos caminhos.
No silêncio da noite alguém desliza
das áureas messes pela ondeante face,
como se o ruflo matinal da brisa
as orvalhadas flores agitasse.
Um ninho acorda; agita-se o arvoredo
da viração ao módulo bafejo;
uma harpa soa pelo bosque a medo,
o vento ensaia o seu primeiro harpejo.
Dentre a purpúrea concha do nascente,
de róseos tons e claros véus coberta,
avança a madrugada transparente
sobre a janela do horizonte, aberta.
Uma fanfarra, súbito, reboa,
de claros trilos aurorais sonora,
e pela selva adormecida ecoa,
crebra, a risada olímpica da aurora.
O mar estua. A selva rumoreja
Golfam da gruta as cristalinas fontes.
A luz nascente e matinal flameja
atrás dos altos píncaros dos montes.
Nas orgias do aroma a flor acorda.
A luz cintila pelo orvalho asperso.
Liras despertam ecos, corda a corda.
Canta a harmonia o seu primeiro verso...
No céu sereno, entanto, a derradeira
estreita fecha as pálpebras, sonhando;
a via-láctea vai, qual uma esteira
de luz desfeita, aos poucos desmaiando.
E vai-se a noite. Pelo bosque intensa
a luz penetra pouco a pouco. E em roda
a natureza, em harmonia imensa,
toda desperta, estremecendo toda.

II
O LUAR (adormecendo)
O bosque está sonhando.

O BOSQUE (despertando)
A luz, surgindo,
desliza à flor da resplendente seara,

O GATURAMO
Vai o céu das estrelas se despindo
e toda a linha do horizonte aclara.

O LOTO
Febril, velando pela noite afora,
entanto, avança a sideral orgia.

O BOSQUE
Arde no oriente a púrpura da aurora.

O LAGO
Vai, pouco a pouco, despertar o dia.

O LUAR
Envolvidas nas túnicas flutuantes,
nas clâmides de luz ideais e belas,
das danças nas coreias delirantes.
giram no espaço as pálidas estrelas.

O LOTO
Trazem flores de neve nos toucados,
áureos festões e lúcidos diademas
e sapatinhos de coral, ornados
de celestiais e cintilantes gemas.

VÊNUS
Quem entra o céu? Que agitação é esta
que cuido ouvir nos côncavos profundos?
Que bacanal ou portentosa festa
os sóis e os planetários mundos?
Que novo sol oriundo do horizonte
vem receber o lúcido batismo
da via-láctea na sidérea fonte
que catadupa pelo excelso abismo?

III
ARCTURUS

Vamos, ó flor! Levanta-te e caminha.
O dia já desponta. É tarde. Vamos!
vamos, esposa minha, estrela minha,
sonhar no ocaso o mito que sonhamos:
porque é o ocaso o leito perfumado,
onde os sonhos dos noivos venturosos
tecem um nebuloso cortinado,
estrelado de pontos luminosos.
Sob a tenda do pálido Crescente
vem repousar no tálamo de prata:
ama o desejo a sombra transparente,
onde o pudor das almas se recata.
Bela princesa, vem ouvir comigo
a sinfonia harmônica dos beijos,
vem pôr da bruma sob o opaco abrigo
os meus desejos mais os teus desejos...
Louca! Não chores! Que loucura a tua!
Quem poderia te espreitar no leito,
ver-te a garganta inteiramente nua
e nu teu corpo olímpico e perfeito?
Deixa que eu tire o véu dessa cabeça
onde escorrem translúcidos novelos,
e que teu corpo nu desapareça
no turbilhão astral de teus cabelos:
deixa que brilhe ao meu olhar surpreso
o róseo tom da pele branca e fresca,
e que de assombro religioso preso,
beije essa mão etérea e principesca:
deixe que eu tire aos lácteos pés pequenos
dois sapatinhos que uma estrela calça:
Vendo-os teria um dissabor a Vênus
que o paganismo nesciamente exalça...
Queima-me as veias da volúpia a chama:
a minha boca de desejos arde... 
Bem vês a lava que meu peito inflama,
ao rude tom da minha vós covarde!
Deixa que eu goze meu febril anelo
nas curvas dóceis dessa carne pura,
ó tu, ventura de meu sonho belo!
ó tu, meu belo sonho de ventura!
Ó minha flor! já canta a luz do dia...
O nosso afeto, o nosso amor gozemos,
e neste sonho pela fantasia,
como num barco pelo azul voguemos.

IV

Desde essa noite, quando há casamento
do Luar no palácio de cristal,
dançam estrelas pelo firmamento,
nas coreias do Ritmo Universal.