I

Vestido de ouro o Sol, bom padre, canta a missa
Da luz no altar do céu. Véus de celestes damas,
As nuvens voam: cantam pássaros: e viça
Mais do que nunca o olhar de Flora pelas ramas.

Entra o Espectro. Com voz soluçante e submissa
Murmuro-lhe:— “Por que, se és luz, se já não amas,
Atormentar-me assim? Não haverá justiça
Final no inferno, fogo eterno, eternas chamas?

Para que perseguir-me. Anjo tristonho? Espera.
Ou antes de noite vem, quando o remorso chora,
E o luto os olhos fecha à alma da primavera.”

— “Bem te deves lembrar: quando tu me esqueceste,
Brilhava o mesmo sol no mesmo céu de agora...
Bem te deves lembrar: foi um dia como este.”

II

E o Espectro, que era um anjo espiritual, esvoaça
Pelo ar tranquilo, e sobe ao céu. Noite silente.
Toda de branco, a lua, ancila triste, passa
Pelo mosteiro celestial, celestialmente.

Estrelas de um fulgor de diamantes sem jaça
Brilham na concha azul do céu de outubro quente.
Horas passam. De novo o Espectro vem.— “Por graça
Deixa-me em paz, deixa-me em paz eternamente.

Ou antes mais tarde vem, quando a treva de rastros
Envolve a terra, quando o céu negro recua
Para mais alto, e chora os semimortos astros.”

— “Quando eu morri, hora fatal, hora funesta,
Era uma noite assim, toda branca de lua...
Bem te deves lembrar; a noite era como esta.”