...Une pourpre s'apprete
A ne tendre royal que mou absent tombeau.
S. Mallarmé

I

Desesperanças! réquiem tumultuário
Na abandonada igreja sem altares...
A noite é branca, o esquife é solitário, 
E a cova, ao longe, espreita os meus pesares.

Sinos que dobram, dobras de sudário!
No silêncio das noites tumulares
Há de surgir o espectro funerário,
Cujos olhos sem luz não têm olhares.

Santo alívio de paz, consolo pio,
Fonte clara no meio do deserto,
Manto que cobre aqueles que têm frio!

Eis-me esperando o derradeiro trono:
Que a morte vem de manso, em dia incerto,
E fecha os olhos dos que têm mais sono... 

II

Mãos de finada, aquelas mãos de neve,
De tons marfíneos, de ossatura rica.
Pairando no ar, num -gesto brando e leve,
Que parece ordenar mas que suplica...

Erguem-se ao longe como se as eleve
Alguém que ante os Altares sacrifica:
Mãos que consagram, mãos que partem breve,
Mas cuja sombra nos meus olhos fica...

Mãos de esperança para as Almas loucas.
Brumosas mãos que vêm brancas, distantes.
Fechar ao mesmo tempo tantas bocas...

Sinto-as agora, ao luar, descendo juntas,
Grandes, magoadas, pálidas, tateantes,
Fechando os olhos das visões defuntas...

III

Quero crer, olhos meus em penitência.
Que na mágoa da eterna despedida
Vos terei transformadas na áurea essência
De dois astros de luz amortecida...

Invocareis então a alta Clemência

De Deus para a minha Alma dolorida.
No instante em que eu, sublime de inocência,
Murmurar-vos assim, deixando a vida:

Olhos de olhar o mundo contristados,
Eis-nos agora além, nesse mistério
De epitálamos e de astrais noivados...

Vede bem que estes restos foram vossos:
Iluminai, com resplendor funéreo,
Em noite longa, a cinza dos meus ossos...

IV

Oh lábios que sereis de lodo e poeira.
Que intangível desejo vos abate?
Que ânsia suprema, na hora derradeira.
Em silêncio vos livra esse combate?

Quereis falar, e quietos sois: na inteira
Mudez do coração que já não bate,
Por debaixo de vós ri-se a caveira,
Lábios que fostes chamas de escarlate.

Se frios como neve estais agora,
Com saudades dos beijos que não destes,
Alegrai-vos na dor que vos descora.

Cerrai-vos para sempre em doce calma:
Que os beijos dados, e ainda os mais celestes,
Nunca deixam vestígios na nossa Alma...

V

Braços abertos, uma Cruz... Basta isto,
Meu Deus, na cova abandonada e estreita
Onde repouse quem te for benquisto,
Corpo de uma Alma que te seja afeita.

É o Justo. As chagas celestiais de Cristo
Beijam-lhe mãos e pés: purpúreo deita
O pobre lado traspassado o misto
De água e de sangue. É o Justo. Eis a Alma Eleita.

A coroa de espinhos irrisória
Magoa-lhe a cabeça, e pelas costas
Cai-lhe o manto dos reis m plena glória...

Glória de escárnio o manto extraordinário:
Mas quem me dera um dia, de mãos postas,
Nele envolver-me como num sudário!

VI

Ah! tantas ilusões, para as perdermos,
E os sonhos onde iremos enterrá-los!
E sempre o luar na solidão sem termos,
E estes corpos a encher covas e valos...

Vamos rezar além, naqueles ermos.
Quem poderá sofrer tantos abalos!
Os pobres corações estão enfermos,
E o consolo de Deus deve salvá-los.

Tomba de joelhos, tu que não soubeste
Gozar a paz que veio sobre as ondas
Da tua Alma ao clarão da noite agreste...

Noivo da Morte em branca primavera,
Se acaso tens um leito onde te escondas,
Aperta a mão piedosa que te espera... 

VII

Se eu procurasse a minha cova ausente.
Bem pode ser à beira desta estrada
Ante a minha Alma a visse de repente,
Boca vazia ao luar escancarada...

Mas nessa hora de horrores que pungente
Espanto! Alma no amor crucificada,
Branca, fugindo silenciosamente.
Talvez que o teu olhar não visse nada.

Tanto é certo, meu Deus, na vida impura
Não podermos saber onde marcados
Estão os palmos de cada sepultura...

Pois, talvez, ao crepúsculo indeciso
Que me encaminha os passos fatigados,
Seja-me a cova o chão que agora piso...