Ontem, à meia-noite, estando junto
A uma igreja, lembrei-me de ter visto
Um velho que levava às costas isto:
Um caixão de defunto.

O caso nada tem de extraordinário.
Que um velho a levar um caixão tal
Inda não viu? É um fato quase diário
Em qualquer bairro de uma capital. 

Mas é que ia de modo tal curvado
Para o chão, e ao falar tão baixo e tanto,
Que, manso e manso, e trêmulo de espanto,
Fui seguindo a seu lado.

Disse-lhe assim: "Talvez seja a demência
Que guie os passos todos que tu dês;
Ou és então, na mísera existência,
Um miserável bêbado talvez."

O olhar fito no chão, como desfeito
Em sangue, o velho, sem me olhar, seguia.
E ouvi-lhe a única frase que dizia:
— "Vou levando meu leito."