(A Augusto Inácio de Araújo Lima)

No campanário, ao sol incerto,
Não há sineiros nem há sinos
Se alguém morrer aqui por perto,
Não terá dobres vespertinos,
Lamento de almas no deserto.

Já não lia sinos nem sineiros
No campanário em abandono...
Bastam, talvez, os carpinteiros
A trabalhar dias inteiros,
Dando leitos, a quem tem sono.

Nenhuma cruz, abrindo os braços,
Vela por quem já não existe
No chão pisado não há traços
De joelhos, mas somente passos
Indiferentes de algum triste.

Junto deste caixão informe
Ninguém reza de joelhos juntos...
Basta, talvez, a cova enorme
Para abrigar o homem que dorme
No campo-santo dos defuntos.

Só, na Capela entristecida,
Que dorme sobre a encosta agreste,
Nossa Senhora, a Dolorida,
Vem apontar-nos a outra vida,
Olhando o Céu com o olhar celeste.

E no Altar-mor, cheio de palmas,
No claro-escuro de um sol-posto,
Nosso Senhor recebe as almas,
Abrindo as pálpebras tão calmas
Por entre as chagas do seu rosto.

No seu olhar de Abandonado,
Pois a Capela está vazia,
Fulgura o humano luar sagrado
Que arranca os homens do pecado
E de Jesus nos faz um dia.

Já não há sinos nem sineiros
No campanário cm abandono ...
E sob a sombra dos salgueiros
File aparece nos outeiros
Como um solar que não tem dono.

Ah! como é triste, ao sol incerto,
Longe da voz santa dos sinos...
Para guiar-nos ao céu aberto
Já não tem dobres vespertinos
O campanário do deserto.