I

Ascetas imortais da Idade Média, os joelhos
Sangraram-vos de tanto orar: o olhar contrito,
Seguindo o olhar de Deus nos ocasos vermelhos,
Fugiu-vos para o céu, sedento de infinito.

As nuvens para vós eram como evangelhos.
Páginas onde a mão de Deus havia escrito.
E vós líeis por lá, ansiosos como os velhos,
O roteiro estelar de um destino bendito.

Se eu pudesse viver a vossa doce vida,
No mistério final de um mosteiro de treva,
Onde se ia apagar tanta alma dolorida...

Viver longe da carne ardente, da luxúria
Que para nos tentar em cada peito eleva.
Como frutos de luz, duas tetas de fúria!

II

Pudesse eu, pudesse eu viver acima disto,
Onde... não sei, e nem me importa a mim sabê-lo.
Em um lugar em que de ninguém fosse visto,
Envolta a fronte num fulgor de sete-estrelo.

E lá, junto a meu Pai celeste, ouvindo a Cristo,
Fonte de luz, feliz por tão de perto vê-lo,
Todo branco de luar, ser o filho bem quisto
A quem o pai afaga e beija-lhe o cabelo.

Viver em pleno mundo azul, longe do nível
Comum para quem é mortal, sempre ajoelhado,
Na santa comunhão de um amor impassível.

Ser um Eleito, bem longe da humana vida
Ser o Cordeiro que vai ser sacrificado,
E vê na luz do céu a terra prometida.