Eu a vi, mas passando apressada,
Qual meteoro brilhante a luzir;
Eu a vi, e estampada em minha alma
Se ficou para enquanto existir.
A. F. Colim.

Eras tu, eras tu, que eu sonhava...
A. Herculano.

Houve um tempo em que eu buscava,
No firmamento estreitado
A estrela, à que ligado
Meu destino Deus pusera;
Mas logo as vistas baixava,
Desanimada, abatida;
Que o astro da minha vida
Luzir não via na efêmera.

Meu pobre coração louco
Em vão tentava animar-me,
E nova esperança dar-me,
Que não podia durar;
Sim em vão; que dentro em pouco
Os quadros, que a fantasia,
Risonhos, pintado havia,
Vinha o pranto desbotar.

Assim via ir-se escoando
O meu viver neste mundo,
E com desgosto profundo
Irem-se as noites no céu...

Essas noites que, passando,
Uma após outra, arrancavam
As esperanças, que brotavam
No puro coração meu. 

Mas ele, sempre teimoso,
Com a maior perseverança
Plantava nova esperança,
Pensando colher-lhe a flor!
Não sabia o desditoso
Que às sevas leis da má sorte —
Da terra o poder mais forte
Não ousa obstáculos por!
Em vão pretendia a mente
Ao meu doido coração
Os conselhos da razão
Fazer atento escutar;
Em vão dizia ao imprudente
Que teima tão prolongada,
Nesta vida limitada,
Era insano delirar.

A nada ouvidos prestava,
E, na mais louca porfia,
Logo que a noite estendia
Sobre a terra o imenso véu,
Ansioso ele procurava
Ver o seu astro radiante
Entre o cortejo brilhante,
Que passeava no céu.

E ia assim consumindo
Nesse cansado desejo,
Triste, mesquinho sobejo
De vida tão gasta já;
De vida que, à luz eu vindo,
Neste oceano de dores,
Num de seus ímpios rigores
Fadara-me a sorte má.

Mas um dia em que assomando,
Tinha a noite desdobrado,
Nítido manto esmaltado
Todo de estrelas mimosas,
A minha não divisando
Entre o concílio luzido,
Que do meu país querido
As noites faz tão formosas,
“É impossível — dizia —
 Que Deus se lembre de mim,
E minha alma deixe assim
Curtir tamanho pesar!

Deus, que as dores alivia
Com seu influxo divino,
Por que, vendo o meu destino,
Não quer a minha abrandar?
Todos têm a sua estrela
Mais formosa, ou menos bela?

Podem conversar com ela,
E admirar-lhe o fulgor;
Mas a minha onde está?.. onde?.
Por que me foge e se esconde?...
Por que meiga não responde
Ao meu reclamo de amor?
Deixa, meu Deus, que eu a veja,
Inda que um instante seja,
E que tão risonha esteja,
Qual tenho-a visto a sonhar;
Que possa, de hoje em diante,
A lembrança desse instante,
 Num doce enlevo constante?
A minha vida aditar.

 Ah! Senhor! tem piedade,
Por tua suma bondade,
Desta cruel ansiedade,
Que me tortura o viver!
Se te move meu tormento,
Deixa, sequer um momento,
Que eu possa no Armamento
Minha estrela amada ver!”
Depois triste, desolada,
Amargo pranto vertia,
Que, mais que a voz, exprimia
Minha aguda, intensa dor...

E essa pena exacerbada
Vendo lá do santo Empíreo,
Deus ao meu longo martírio
Quis piedoso termo pôr.
Sim — o pranto caudal, que dos olhos
Pela angústia brotava arrancado,
Conseguiu que o Senhor derrogasse
Os decretos cruéis de meu fado.
Através da torrente de lágrimas,
Que turvava o cansado olhar meu,
Vi, mais linda que as outras estrelas,
Minha estrela luzindo no céu.

Eu a vi como a tinha sonhado,
Como a tinha pedido ao Senhor,
Um composto de mimo e doçura,
Um esmero mimoso de amor.
Um instante somente durara
Tão suave, tão grata visão...

Apagou-se, bem como se apaga
Do relâmpago o breve clarão! 
Mas que importa que Deus a deixasse
Um instante somente luzir,
Se eu a vi, e estampada em minha alma
Me ficou para enquanto existir?
Que me importa, que os olhos do corpo
Não n’a possam no céu avistar,
Se com os olhos desta alma eu a vejo
Dentro em meu coração fulgurar?
Sim— que importa, se eu sei que ela existe?

Se eu a vi me sorrir com ternura?
Se da nuvem opaca, que a cobre,
Minha mente atravessa a espessura,
E a vê, qual eu tinha sonhado,
Qual eu tinha pedido ao Senhor,
Um composto de graça e doçura,
Um esmero mimoso de amor?!...
Sou feliz, porque guardo a lembrança
De seu meigo, encantado sorrir,
Que me deixa zombar dessa nuvem,
Que a meus olhos a quer encobrir!