(Aos anos do Sr. Visconde da Pedra Branca)

Se falta o estro, o coração sobeja;
A bem do coração desculpa o canto.
V. da Pedra Branca. 

O pó, que toda a envolvia,
Da lira fui sacudir,
E as cordas enferrujadas
Com todo o esmero polir,
A ver se algum som mais doce
Delas podia extrair.

Eu buscava à minha lira
Dar tão sublime expressão,
Que de amizade mais pura
Fosse a fiel tradução;
Um eco, que repetisse
As falas do coração.

Mas a lira, a pobre lira
Tanto tempo abandonada,
Apesar dos meus esforços,
Ficou tão desafinada!...
Do que o meu coração disse
Não soube repetir nada.

Em vão supliquei às musas
Que a viessem afinar;
Não me ouviram; ou quiseram
Destarte me castigar,
Por tanto tempo passado
Sem eu delas me lembrar.

Só dos filhos prediletos,
Que por elas estremecem,
Para Ornar as nobres frontes
De flores capelas tecem;
São eles, que os seus tesouros,
Tão cobiçados, merecem.

A estes pertence em hinos
De suave melodia
Louvar-te, no aniversário
De teu natalício dia,
As virtudes, que minha alma
Com devoção aprecia.

Não irá, pois, minha lira
Unir seus acentos rudes
Aos sons doces, maviosos
De sublimes alaúdes,
Que, afinados pelas musas,
Aplaudem tuas virtudes.

Sim; que saudade tão funda
Meu coração despedaça,
E de tão negra tristeza
Verte nele amarga taça,
Que, o canto que eu desferisse,
Seria um canto sem graça.

Não vá, pois, esta saudade,
Que sinto na alma a gemer,
Com as rosas de tua aurora
Triste contraste fazer;
Nem misturar seus suspiros
Com os risos de almo prazer.