Saudade! gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho,
Que me estás repassando o íntimo peito
Com dor, que os seios de alma dilacera,
— Mas dor que tem prazeres.
Garret: Poema “Camões”.

No meu seio uma flor de esperança
Cultivei com desvelo perfeito;
Mas o rijo tufão da desgraça
Arrancou-me a florinha do peito.

Ela foi num abismo funesto
De cruel desengano cair,
E após veio a mais negra saudade
Com espinhos minha alma pungir.

Tu ao menos, ó flor de infelizes,
Tu ao menos não me hás de deixar;
Se a desgraça plantou-te em meu peito,
Dele mais te não pode arrancar.

Essas vãs alegrias do mundo,
Esses gozos que o mundo aprecia,
Eu os troco, saudade adorada
Pela tua fiel companhia.

Enquanto eu existir, do martírio,
Viverás, para me dares a palma;
Se a ventura tentasse levar-te,
Levaria contigo minha alma.

Tu ao menos, ó flor de infelizes,
Tu ao menos não me hás de deixar;
Se a desgraça plantou-te em meu peito,
Dele mais te não pode arrancar.

Nem espero que mude meu fado;
E se atento em meu triste futuro,
Nele vejo — indizíveis angústias
Um sepulcro cavando-me escuro!

Praza a Deus, que com tantos desgostos,
Minha pobre razão não feneça;
Que a saudade me não desampare,
Nem seu doce motivo eu esqueça.

Sim, permite, Senhor, que em minha alma
Ache sempre uma imagem querida,
Que, a despeito da sorte mesquinha,
Me atormente, encantando-me a vida.

Que essas vãs alegrias do mundo,
Esses gozos que o mundo aprecia,
Da saudade adorada eu os troco
Pela doce e fiel companhia.